quarta-feira, 30 de março de 2022

Crítica: Morbius (2022)

Dirigido por: Daniel Espinosa. Roteiro de: Matt Sazama e Burk Sharpless. Fotografia de: Oliver Wood. Estrelando: Jared Leto, Matt Smith, Adria Arjona, Jared Harris, Al Madrigal e Tyrese Gibson.

Adiado diversas vezes (a última para que a Sony pudesse continuar capitalizando com Sem Volta Para Casa), o novo projeto do "universo paralelo" do Homem-Aranha requenta o velho conceito do cientista louco convertido em monstro. Deslocado em seu tempo, o longa parece saído dos anos 1990, com estética de videoclipe e personagens unidimensionais.

O roteiro acompanha o médico Michael Morbius (Leto) que, portador de uma rara doença hematológica, criou uma espécie de sangue artificial, que salvou mais vidas do que a penicilina. Decidido a encontrar uma cura para sua própria enfermidade, o cientista tem a brilhante ideia de cruzar o DNA de humanos com o de morcegos-vampiros. Só que, claro, muito é cobrado de quem muito foi dado. Com grandes poderes...

Vilão dos quadrinhos do Homem-Aranha, o "Living Vampire" da Marvel é aqui interpretado por um Jared Leto cuja barba e cabelo comprido tradicionais são sintomáticos do vazio do personagem. Matt Smith, como era de se esperar, está no piloto-automático, e podemos antecipar a reviravolta envolvendo seu personagem no primeiro momento em que o ator entra em cena. E se Adria Arjona é eficiente como o interesse romântico do protagonista, pouco é ajudada pelo roteiro, que contém todo tipo de clichê possível e imaginável. 

É óbvio que, mesmo que este projeto específico represente uma triste interrupção no boom de acertos da Sony, veremos o Dr. Morbius novamente, seja sozinho ou acompanhado. Apesar de ser totalmente esquecível, é possível transformar o personagem num anti-herói interessante com a devida atenção e cuidado. Com a devida atenção e cuidado.

Por Bernardo Argollo

Obs.: há duas cenas mid-credits e nenhuma pós-créditos

Agradecimentos: Espaço Z, Sony Pictures, IMAX Inc. e UCI Orient.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Crítica: Matrix Resurrections (2021)

Dirigido por: Lana Wachowski. Roteiro de: Lana Wachowski, David Mitchell e Aleksandar Hemon. Fotografia de: Daniele Massaccesi. Estrelando: Keanu Reeves, Carrie-Anne Moss, Yahya Abdul-Mateen II, Jessica Henwick, Jonathan Groff, Neil Patrick Harris, Priyanka Chopra Jonas e Jada Pinkett Smith.

Em maio de 1999, quem assistiu Matrix nos cinemas sofreu um impacto como nunca antes visto no cinema. Repleto de cenas de ação fantásticas e filosofia, era diferente de tudo que se tinha visto até então. Depois de duas sequências, animações, livros e referências em várias outras mídias, será que havia ainda o que contar depois de vinte anos?

Depois de assistir Matrix Ressurections, a resposta é sim! O filme começa com um deja vù, mas com a introdução de, uma nova personagem, Bugs (a espetacular Jessica Henwick) que nos apresenta o novo Morpheus, percebemos que muita coisa mudou na Matrix desde o sacrifício de Neo na cidade das máquinas.

Repleto de metalinguagem, o filme acerta no tom de nostalgia, com Lana Wachovski sugerindo uma história dentro da história, com o conceito que a trilogia original foi uma criação de Thomas Anderson (Keanu Reaves), um designer de videogame que revolucionou a cultura pop com sua criação e que agora vive sob a sombra dela. Instigado pelo seu sócio a criar uma sequência para seu jogo original, o filme reintroduz elementos familiares, como a escolha entre manter-se na fantasia ou encarar o mundo real, e personagens repaginados, como o já citado Morpheus, com sua missão de despertar Neo de sua apatia, e o agente Smith, a Nêmesis perfeita do Escolhido.

Com cenas de ação espetaculares, que flertam até com a nova onda de zumbis de Hollywood e uma trilha sonora instigante, Matrix Ressurections nos mostra que o conceito criado há 20 anos atrás está mais atual do que nunca, com o mundo virtual quase substituindo o mundo real.  

Mas é na relação entre Neo e Trinity que o filme ganha coração, mais do que nunca fica evidente que Matrix sempre foi uma história de amor. Com uma química incrível, Carrie-Anne Moss e Keanu Reaves dão credibilidade a todo o universo de Matrix, injetando conexão emocional que contrasta com a frieza das máquinas. A sua jornada de descoberta e empoderamento faz justiça a sua história na trilogia original, resgatando seu papel de coprotagonista da história. 

O filme não possui só acertos. Revisitar uma história que amarrou todas as suas pontas soltas no final é sempre arriscado, e muitas explicações podem soar forçadas, mas Matrix Ressurections soa mais como um epílogo, uma forma de proporcionar um final feliz para Neo e Trinity, respeitando toda a mitologia da trilogia original, e demostrando que a necessidade de reinvenção faz parte da natureza humana. 

Por Ronaldo Acácio

Agradecimentos: Espaço Z, Warner Bros. e todos aqueles presentes na sessão de imprensa de Matrix Ressurections, por acreditarem na experiência inesquecível de assistir um filme no cinema.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Crítica: Eternos (2021)

Dirigido por: Chloé Zhao. Roteiro de: Chloé Zhao, Patrick Burleigh, Ryan Firpo e Kaz Firpo. Fotografia de: Ben Davis. Estrelando: Gemma Chan, Richard Madden, Kumail Nanjiani, Lia McHugh, Don Lee, Harish Patel, Kit Harington, Salma Hayek e Angelina Jolie.

Após Chloé Zhao ter sido agraciada com o Oscar de direção em abril deste ano, toda e qualquer notícia relacionada a Eternos gerou um hype enorme. Cada poster, trailer ou declaração do elenco deixava os fã alvoroçados. De fato, o novo longa da Marvel toma direções intrigantes, ainda que confusas. De todo modo, o projeto tem uma missão ingrata: expandir o lado místico do MCU, bem como explicar vários pontos de sua mitologia.

Desviando da fórmula tradicional do "filme de origem", Eternos traz um olhar mais artístico, autoral. O roteiro acompanha os heróis-título, um grupo composto por seres amortais (e não imortais) que foram enviados à Terra para proteger a humanidade dos Deviantes, criaturas que aterrorizaram nosso planeta na antiguidade e, claro, estão de volta. 

E se até agora não citei o nome de um único membro do elenco, é porque todos têm tempo de tela similar, sendo desenvolvidos quase que igualmente, algo bastante incomum em narrativas sobre múltiplos heróis. Ou seja, não temos a overdose de Angelina Jolie que muitos aventaram, o que é bastante positiva, pois a atriz emprega aqui o mesmo tom monocórdico com o qual recitava as falas de Malévola. Destaco, no entanto, a atuação impecável de Gemma Chan, no seu segundo papel no MCU e Don Lee, ator sul-coreano cujo carisma já se fazia sentir desde Train to Busan (2016).

Bastante inchado em suas duas horas e meia de projeção, o longa aposta numa narrativa não-linear. Mesmo eficiente, lembra a auto-indulgência de Batman v Superman em certos momentos. A bela fotografia de Ben Davis (o mesmo de Cry Macho) chega a incluir trechos rodados em 16mm, contribuindo para uma estética própria em meio ao mundo de produções rodadas em formatos digitais.

Apesar de todos os pontos positivos, creio que Eternos jamais será unanimidade. Primeiro, por mergulhar em questões apenas tangenciadas anteriormente. Em segundo lugar, talvez uma parte do público estranhe certos incidentes da narrativa. Se esse for o seu caso, sugiro que interprete-os de maneira alegórica, não literal. O novo projeto da Marvel é um esforço interessante, que acerta em algumas propostas e falha em muitas outras. Não deixa de ser sintomático, portanto, que a cena pós-créditos seja mais empolgante do que todo o clímax.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z, Walt Disney Studios Motion Pictures e todos aqueles presentes na sessão de imprensa de Eternos, por acreditarem na experiência inesquecível de assistir um filme no cinema.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Crítica: Cry Macho - O Caminho Para a Redenção (2021)

Dirigido por: Clint Eastwood. Roteiro de: Nick Schenk e N. Richard Nash. Fotografia de: Ben Davis. Estrelando: Clint Eastwood, Dwight Yoakam, Eduardo Minett, Natalia Traven e Fernanda Urrejola.

Clint Eastwood sempre foi uma presença carismática. Sempre conseguiu transmitir uma riqueza de ideias por meio de uma atuação contida, econômica. E já que falei em economia, está é talvez a palavra que melhor descreve este projeto. Lançado com uma campanha de marketing que consistiu basicamente de um único poster e um trailer, o filme acompanha o ex-peão de rodeio Mike Milos, que recebe a missão de resgatar o filho de seu patrão, que se encontra no México.

O que parece interessante na teoria, acabou se tornando, basicamente, uma reciclagem. E reciclar roteiros que não funcionaram é sempre uma ideia arriscada. O enredo de Cry Macho, inspirado pelo romance de N. Richard Nash, basicamente recria o argumento de Gran Torino, também dirigido por Eastwood em 2008. Como se não bastasse, o companheiro de cena do protagonista, aqui interpretado por Eduardo Minett, é quase tão ruim quanto sua contraparte da década retrasada.

Recitando suas falas em tom monocórdico e incapaz de esboçar qualquer emoção, Minett deixa para o protagonista todo o peso dramático da obra. Só que o nonagenário Eastwood, infelizmente, faz aqui um personagem claramente concebido para ser vivido por um ator mais jovem, já que sua óbvia dificuldade de locomoção é um atentado à suspensão de descrença. Mesmo com o uso de dublês em diversas cenas, fica difícil acreditar que o cowboy Mike seria capaz de realizar uma tarefa que exige, acima de tudo, fisicalidade. 

Apostando numa conclusão de conflito digna de novela da Globo, o longa nos envia para fora da sala com um gosto amargo na boca. É inacreditável que tenha sido comandado pelo mesmo cineasta que realizou tantos filmes inesquecíveis. Resta-nos torcer para que ele não se aposente e retome a antiga forma em sua próxima empreitada.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z, Warner Brothers e todos aqueles presentes na sessão de imprensa de Cry Macho, por acreditarem na experiência inesquecível de assistir um filme no cinema.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Crítica: Maligno (2021)

Dirigido por: James Wan. Roteiro de: Akela Cooper. Fotografia de: Michael Burgess. Estrelando: Annabelle Wallis, Maddie Hasson, George Young e Michole Briana White.

Responsável por Jogos Mortais, Sobrenatural, Aquaman e pelos dois primeiros Invocação do Mal, este Maligno representa um retorno às origens para James Wan. Distante do (belo) padrão estabelecido pela A24, o cineasta malaio propõe uma mistura de giallo com slasher, de modo a resgatar o terror B da era das locadoras. Dessa forma, temos um filme que, embora irregular em seus resultados, é capaz de arrancar suspiros de todos aqueles que, como eu, foram colecionadores do saudoso formato VHS.

O roteiro acompanha a jovem Madison (Wallis) que, após sofrer um trauma pelas mãos de seu próprio marido, começa a ter sonhos envolvendo assassinatos brutais. A partir dessa tímida crítica social às relações abusivas, Wan constrói o primeiro ato num ritmo lento e deliberado. Aos poucos, Madison percebe que os assassinatos estão conectados a Gabriel, entidade oriunda de seu passado, cuja natureza terá de investigar com a ajuda de sua irmã Sydney (Maddie Hasson).

Desinteressante em sua premissa, o longa consegue nos engajar pela curiosidade no que virá a seguir, ainda que o quebra-cabeça proposto seja relativamente fácil de resolver. O já esperado plot twist é dolorosamente óbvio. O humor involuntário, tão presente nos slashers, também existe aqui, especialmente numa sequência envolvendo detentas interpretadas por atrizes com talento para o sitcom e figurinos que remetem a várias décadas diferentes. 

Bastante inspirado visualmente, o projeto chega a incluir um plano-detalhe mostrando o interior de um videocassete, o que, convenhamos, não poderia ser mais adequado. Há também referências visuais a Jogos Mortais, Suspiria e O Chamado, além de obras de autoria do próprio Wan. Tudo isso embalado pela ótima performance de Annabelle Wallis, que aqui demonstra um talento inexistente em seus trabalhos anteriores. 

Maligno é um daquelas produções que, independente de sua qualidade, comprovam o talento de seu diretor, já que, se fosse conduzida por qualquer outra pessoa, seria uma bomba inacreditável. Finalmente foi feito um tributo decente a Wes Craven e Dario Argento.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z, Warner Brothers e todos aqueles presentes na sessão de imprensa de Maligno, por acreditarem na experiência inesquecível de assistir um filme no cinema.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Crítica: A Lenda de Candyman (2021)

Dirigido por: Nia DaCosta. Roteiro de: Jordan Peele, Win Rosenfeld e Nia DaCosta. Fotografia de: John Guleserian. Estrelando: Yahya Abdul-Mateen II, Teyonah Parris, Nathan Stewart-Jarrett e Colman Domingo.

Sequência do "clássico" de 1992, A Lenda de Candyman é o que alguns chamam de spiritual sucessor (ou sucessor espiritual, em tradução livre). Não é exatamente uma continuação no sentido tradicional da palavra, mas também não é um reboot, pois não ignora os acontecimentos de projetos anteriores. É um longa que traz elementos de estilo e temas similares, mas os ressignifica em algo novo. Há inúmeros exemplos de filmes que tentaram uma abordagem similar, mas nenhum foi tão bem sucedido.

Produzido por Jordan Peele, Candyman traz comentários que já esperaríamos, dado o envolvimento do responsável pelos sublimes Corra! e Nós. A gentrificação de Chigago, o racismo, o poder da arte em evocar sentimentos... Só para citar alguns. O roteiro, escrito a seis mãos, acompanha o pintor Anthony (Yahya Abdul-Mateen II) que, decidido a lançar uma nova exposição, encontra na lenda de Candyman inspiração para novos trabalhos. Aos poucos, essa lenda vai se tornando real, mais uma vez. 

DaCosta faz o que pode para evitar os famigerados jump scares, construindo sua trama em ritmo lento e deliberado. Certa de que o terror efetivo se faz com atmosfera, não com sustos, a diretora investe numa fotografia sóbria, enquadramentos elegantes e numa trilha sonora inspiradíssima. Destaque para uma cena de assassinato de adolescentes que, desconectada da enredo principal, contém um simbolismo pungente em sua construção.

Encerrado com uma nota alta, o projeto deixa um gancho para uma continuação, mas de uma maneira elegantíssima. Entrelaçando o poder das lendas urbanas com a força da figura maligna, a cineasta faz escolhas ousadas, em todos os âmbitos. A futura diretora de Capitã Marvel 2 sabe ser provocante.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z, Warner Brothers, Universal Pictures e todos aqueles presentes na sessão de imprensa de A Lenda de Candyman, por acreditarem na experiência inesquecível de assistir um filme no cinema.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Crítica: Caminhos da Memória (2021)

Escrito e dirigido por: Lisa Joy. Fotografia de: Paul Cameron. Estrelando: Hugh Jackman, Rebecca Ferguson, Thandiwe Newton e Cliff Curtis.

A estreia de Lisa Joy como diretora foi aguardada com ansiedade. Produtora e cocriadora da série Westworld, a cineasta gravou seu primeiro longa ainda em 2019. Adiado diversas vezes até ter sua estreia marcada para 20 de agosto nos EUA, o projeto terá uma dura batalha pela frente nas bilheterias, tendo que encarar O Esquadrão Suicida e Free Guy. Terá fôlego para tal? Provavelmente não.

A narrativa se passa numa Miami inundada (devido às mudanças climáticas), onde o ex-militar Nick Bannister (Jackman), que trabalha como uma espécie de investigador da mente. Operando uma máquina que permite às pessoas reviver antigas memórias, Bannister ajuda seus clientes a acessarem lembranças perdidas ou reviverem momentos marcantes. Dono de uma existência tranquila, ele vê sua vida mudar quando se apaixona por uma de suas clientes (Ferguson), que desaparece sem deixar vestígios.

Vendido pela Warner como uma ficção científica, o projeto acaba sendo uma mistura de neo-noir, thriller de ação e, sobretudo, romance. Embora Hugh Jackman e Rebecca Ferguson, que já atuaram juntos em O Rei do Show, consigam vender a paixão avassaladora de seus personagens, no fim das contas acabam remetendo a filmes muito melhores, apesar da ideia original. Ainda que evite a pieguice, o roteiro chega a ser chato, até sufocante. Há belas cenas de ação e cenários inspirados, mas também há o homem que faz tudo pela amada, a mulher bonita e misteriosa, a conspiração envolvendo gente poderosa, a velha música usada para recordar uma memória... Eu acho que já vi isso em algum lugar.

Arrastado em suas quase duas horas de duração, o longa talvez agrade os fãs do noir, já que a investigação conduzida pelo protagonista é interessante o suficiente para torná-lo assistível. Além disso, é preciso dizer que Lisa Joy tocou, de leve, num ponto sempre válido, o dos perigos de reviver o passado e se esquecer do presente. E, claro, é preciso dizer que nem todo noir tem o privilégio de ter Rebecca Ferguson interpretando sua femme fatale.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z, Warner Brothers e todos aqueles presentes na sessão de imprensa de Caminhos da Memória, por acreditarem na experiência inesquecível de assistir um filme no cinema.

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