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quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Crítica: Covil de Ladrões 2 (2025)

Escrito e dirigido por: Christian Gudegast. Cinematografia: Terry Stacey. Estrelando: Gerard Butler, O'Shea Jackson Jr., Evin Ahmad, Salvatore Esposito, Meadow Williams e Swen Temmel.

Covil de Ladrões, de 2018, era só mais uma das inúmeras cópias de Heat, clásico de Michael Mann. Uma cópia lucrativa, no entanto. Esta continuação, além da ação, traz elementos de buddy comedy e talk drama. Christian Gudegast, que também comandou o primeiro longa, aqui aposta numa violência um tanto mais estilizada do que antes. A boa notícia é que minha antipatia prévia pelos personagens não prejudicou o envolvimento com a narrativa, surpreendentemente fluida.

O roteiro, que trocou o centro de Los Angeles pelo sul da França, mais uma vez traz O'Brien (Butler) na cola de Wilson (Jackson Jr., inexpressivo). Agora divorciado, o personagem de Gerard Butler se junta ao seu ex-inimigo para comandar um assalto a um dos prédios mais seguros da Europa. Não que a virada para o "dark side" seja algo exatamente inesperado, já que a natureza, digamos, pouco ortodoxa de O'Brien já estava mais do que estabelecida.

Os personagens são mornos e o roteiro é pouco inspirado, porém com valor de entretenimento suficiente para nos manter atentos durante as mais de duas horas de projeção. Além disso, é admirável que o diretor-roteirista tenha investido numa nova dinâmica para a dupla principal, e desse modo evita o erro de apenas reciclar a história do filme anterior, comum em continuações de ação. Infelizmente, só funcionará naqueles expectadores que tiverem alguma conexão com subgênero dos heist movies.

Encerrado num terceiro ato cheio de conveniências, o projeto aponta desajeitadamente em direção a uma sequência. Em última análise, Covil de Ladrões 2 peca por tentar atingir dois objetivos antagônicos em seu desfecho. A História nos ensina que criar grandes expectativas para filmes lançados no mercado norte-americano em janeiro* não é boa ideia.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z, Diamond Films e Lionsgate.

*No Brasil, o mês de janeiro é reservado para filmes do ano anterior, especialmente os candidatos a premiações, que não tiveram espaço antes devido ao tamanho diminuto do nosso parque exibidor.

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Crítica: Venom - A Última Rodada (2024)

Escrito e dirigido por: Kelly Marcel. Cinematografia: Fabian Wagner. Estrelando: Tom Hardy, Chiwetel Ejiofor, Juno Temple, Stephen Graham e Rhys Ifans.

Eis que, finalmente, chegou o terceiro filme solo do Venom, parte do desastroso Spider-Man Universe da Sony. Sim, aquele mesmo que mais cedo neste ano nos entregou, ergh... Madame Teia. Provavelmente inspirada pelas buddy comedies dos anos 1980, a diretora-roteirista Kelly Marcel, que escreveu de Cinquenta Tons de Cinza (pois é), faz aqui sua estreia na direção. Péssima escritora, desta vez ela prova que seus predicados como cineasta também são ruins.

O roteiro, iniciado com uma breve exposição sobre o vilão da vez, retoma a narrativa após os eventos vistos na cena pós-créditos de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa. Assim sendo, um Eddie Brock (Hardy) agora foragido decide viajar para Nova York a fim retomar sua carreira, até que tudo muda quando uma criatura enviada por Knull (Serkis) decide interromper seus planos. É interessante notar que Marcel emprega um recurso fraquentemente usado quando há esgotamento criativo: transformar o filme num road movie, para dar a impressão que algo acontece.

Tom Hardy, intérprete extremamente talentoso, aqui está no piloto-automático. Carismático, claro, mas claramente preso a obrigações contratuais. Stephen Graham é (mais uma vez) desperdiçado e, infelizmente, sua participação é pequena. Rhys Ifans se diverte no papel do líder uma família de hippies. Os demais atores oferecem performances pouco inspiradas, até mesmo Peggy Lu, responsável por momentos divertidos nos episódios anteriores. Além disso, o projeto também é prejudicado pelas restrições da classificação indicativa PG-13, resultando em decapitações sem sangue, reprimendas sem qualquer palavrão e, claro, piadas tolhidas.

No entanto, ao contrário da atrocidade mencionada no primeiro parágrafo, A Última Rodada evita a armadilha do excesso de personagens e subtramas, o que, diga-se de passagem, é uma verdadeira praga em conclusões de trilogia. No entanto, o clímax não cumpre a expectativa criada pelo primeiro ato, pois Knull não é um vilão, apenas a promessa de um. Afinal de contas, apesar do projeto ser, hum, a última rodada, o show tem que continuar. As duas cenas pós-créditos, já adianto, são decepcionantes e descartáveis.

Ainda que demonstre ser uma cineasta medíocre, Marcel e o diretor de fotografia Fabian Wagner ao menos têm algum senso estético, demonstrado pelo uso de lentes anamórficas e cenas de ação menos escuras do nos capítulos anteriores. Venom 3 não é um desastre completo nem algo ofensivamente ruim, pois há carisma, energia e valor de entretenimento razoável. É brega, mas assistível. Espero ao menos que a Sony perceba a importância de contratar um diretor competente para os próximos projetos. Hardy, sensato, não renovou o contrato.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z e Sony Pictures.

quinta-feira, 28 de março de 2024

Crítica: Godzilla e Kong - O Novo Império (2024)

Dirigido por: Adam Wingard. Roteiro de: Terry Rossio, Simon Barrett e Jeremy Slater. Cinematografia de: Ben Seresin. Estrelando: Rebecca Hall, Brian Tyree Henry, Dan Stevens, Kaylee Hottle, Alex Ferns e Fala Chen.

O MonsterVerse da Warner nunca foi particularmente notável, mas também nunca deu motivos reais para desapontamentos. Um roteiro fraco aqui, uma escalação questionável ali... Mas sobreviveu, aos trancos e barrancos. O que provavelmente os executivos do estúdio não imaginariam é que um certo filme de 2023 elevaria muito o nível desse tipo de produção. Logo, O Novo Império se prejudica duplamente, pois além de ser ruim, sofre pela inevitável comparação com a obra de arte de Takashi Yamazaki.

O roteiro aqui segue, claro, Godzilla e Kong, que agora devem se unir para combater uma nova ameaça que despontou na "terra oca". Além disso, o projeto tangencia questões como a origem dos Titãs e da própria Ilha da Caveira. De adições ao elenco, a única digna de nota é Dan Stevens, que consegue imprimir algum carisma no divertido Trapper. De resto, é mais do mesmo: as mensagens ambientaloides de sempre, o personagem conspiracionista que explica a trama, a pesquisadora dedicada, a criança-escolhida e bobagens similares.

É uma pena que a bela cinematografia de Ben Seresin, que usa lentes anamórficas para compor belíssimos bokehs, seja prejudicada pelo visual cafona das criaturas. Com a exceção da Mothra (belíssima) todos os monstros aqui vistos parecem saídos de comic books de segunda linha. E se certos momentos até podem ser cativantes, como a sequência envolvendo uma cirurgia dentária em Kong, o projeto perde força toda vez que tenta dar outras camadas à narrativa, como na pavorosa subtrama envolvendo um povo indígena da Terra Oca.

O projeto de Wingard não é ofensivamente ruim, longe disso, mas, em seus melhores momentos, consegue apenas emular filmes muito superiores. Para os brasileiros, no entanto, será divertido assistir à sequência do Rio de Janeiro indo pelos ares. Os mais atentos notarão, inclusive, a destruição do antigo edifício-sede da Petrobras. Godzilla e Kong podem estar bastante enfadonhos aqui, mas pelo menos escolheram um bom destino turístico.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z e Warner Bros. Discovery.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Crítica: Argylle (2024)

Dirigido por: Matthew Vaughn. Roteiro de: Jason Fuchs. Fotografia de: George Richmond. Estrelando: Henry Cavill, Bryce Dallas Howard, Sam Rockwell, Bryan Cranston, Catherine O'Hara, Dua Lipa, Ariana DeBose, John Cena e Samuel L. Jackson.

Matthew Vaughn, diretor de Kick-Ass e do fenomenal Kingsman (escrevi sobre a continuação deste filme aqui), retorna ao univerno no qual tem investido sua força criativa na última década. Eficaz, o cineasta ainda não nos deu motivos reais para desapontamentos. Inicialmente eclético, Vaughn dirigiu em 2007 um dos meus filmes favoritos de todos os tempos, Stardust. No entanto, o britânico parece mesmo decidido a dedicar sua carreira à parodiar/homenagear filmes de espionagem, com resultados variáveis. Devo dizer que apreciei moderadamente a prequel de Kingsman, lançada em 2021, ao contrário da maior parte da crítica. Essa história de origem, além de injustiçada, teve seu desempenho nas bilheterias fortemente prejudicado pela Pandemia.

Eis que, três anos depois, temos Argylle. O roteiro de Jason Fuchs acompanha Elly Conway, vivida por Bryce Dallas Howard (nepo baby, sim, mas das boas), escritora reclusa que, quem poderia imaginar, se envolve em uma trama real baseada em seus próprios livros. Mais metalinguístico, impossível. E se fui sucinto na sinopse, é proposital, pois a quantidade de reviravoltas aqui é capaz de dar inveja aos roteiristas de franquias como Piratas do Caribe e Missão Impossível. Além de Samuel L. Jackson e Bryan Cranston, o elenco também conta com a participação constante de Henry Cavill no primeiro ato (e sua ausência é sentida por todo resto da projeção) e John Cena, ator que considero um talento desperdiçado na indústria.

Há aqui floreios estilísticos bregas, como os efeitos digitais que simulam uma câmera atravessando um vidro (sim, ainda há quem ache isso elegante em 2024). Por outro lado, temos também criações inspiradas, como a sequência envolvendo certas bombas de gás lacrimogêneo. Como em todo bom filme de espionagem, há belas locações, fotografadas com vivacidade, porém um tanto prejudicadas por acréscimentos feitos com CGI de qualidade questionável. Assim sendo, é lamentável que o terceiro ato tenha sido quase que totalmente rodado em internas.

O projeto também sofre pela classificação indicativa PG-13, certamente usada na tentativa de atingir um público mais amplo. Segundo Vaughn, apenas dois cortes tiveram de ser feitos para evitar que o filme fosse R-rated. Desses dois, apenas um realmente incomodou o diretor, de acordo com entrevista que concedeu ao site GamesRadar. Ao que parece, os membros da MPA (entidade responsável pelas classificações indicativas) acreditam que um tiro na cabeça deva ser imediatamente categorizado como para maiores. Disparos no tórax, todavia, são perfeitamente aceitáveis, bastante family-friendly, e recebem um PG-13 sem problemas.

Argylle tem um elenco talentosíssimo, bem como uma riqueza de ideias que, às vezes, parecem disputar espaço umas com as outras. As sequências de ação são criativas, mas irregulares na execução. O roteiro traz reviravoltas constantes, que perdem significado rapidamente e, para os pouco versados no gênero da espionagem, o projeto pode resultar numa experiência mais tediosa do que divertida. Eu, no entanto, sigo ansioso por uma continuação e, claro, por um crossover com Kingsman.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z e Universal Pictures.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Crítica: Beekeeper - Rede de Vingança (2024)

Dirigido por: David Ayer. Roteiro de: Kurt Wimmer. Fotografia de: Gabriel Berinstain. Estrelando: Jason Statham, Emmy Raver-Lampman, Josh Hutcherson, Bobby Naderi, Minnie Driver, Jeremy Irons e Phylicia Rashad.

David Ayer é um diretor de ação eficiente. Foi o responsável por bobagens divertidas como End of Watch (2012) e Fury (2014). Astuto e dono de um olhar razoável, o americano ficou com má fama, algo injusta, após ter seu Esquadrão Suicida picotado pelos executivos da Warner. O motivo, só podemos especular. Bright, seu trabalho de 2017 para a Netflix, prefiro fingir que nunca existiu.

A narrativa acompanha a “saga” por vingança (claro) do Mr. Clay (Statham), decidido a punir os responsáveis por uma rede de golpes de phishing cuja mas recente vítima foi sua amiga/vizinha Eloise Parker (Rashad). Dona de uma naïveté atroz, a idosa se suicidou após perder todos os seus ativos financeiros, zerados num piscar de olhos. Sim, a premissa é absurda, pois ela nem ao menos tenta contactar os bancos ou denunciar a fraude. Outra conveniência incrível é que nem a CIA nem o FBI parecem ser capazes de levar os criminosos à justiça. Só que Clay, obviamente, é um “Beekeeper”, ou seja, bota todos os outros no chinelo. Naturalmente, todos os Beekeepers trabalham à margem do sistema, para proteger a colmeia (o que quer que isso possa significar).

Jason Statham interpreta o mesmo papel de sempre, e com a qualidade de sempre. O britânico é, sem dúvida, o ator de ação mais prolífico da contemporaneidade, dono de uma filmografia de dar inveja a Van Damme ou Stallone. Reminiscente de John Wick do roteito à indumentária dos vilões (estilosíssima, diga-se de passagem), o projeto provavelmente ficará sempre na sombra do filme estrelado por Keanu Reeves. De todo modo, o filme agradará plateias sedentas por conteúdo com classificação indicativa maior que PG-13, particularmente tolhedora em produções deste gênero específico.

As sequências de ação podem não ser tão inventivas ou fluidas como as de John Wick, mas o projeto merece aplausos pela violência deliciosamente brutal e, em certos momentos, até inesperada. Josh Hutcherson, dono de um carisma proporcional à sua (baixa) estatura, interpreta um vilão caricatural com a inexpressividade habitual. Já Jeremy Irons, com dicção perfeita e cadência exemplar, entrega os diálogos expositivos de modo a quase disfarçar sua verdadeira natureza. Beekeeper é pulp cinema em sua essência. Sanguinolento, energético e esteticamente agradável, o longa tira o gosto ruim de Esquadrão Suicida. Quando um cineasta trabalha com um estúdio que respeita sua visão, os resultados tendem a ser mais animadores.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z, Diamond Films e Amazon MGM Studios.

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Crítica: Besouro Azul (2023)

Dirigido por: Ángel Manuel Soto. Roteiro de: Gareth Dunnet-Alcocer. Fotografia de: Pawel Pogorzelski. Estrelando: Xolo Maridueña, Bruna Marquezine, Adriana Barraza, Damián Alcázar, Raoul Max Trujillo e Susan Sarandon.

Primeiro filme da DC centrado num herói latino e penúltimo filme do DCEU, antes de sua repaginada, Besouro Azul é um projeto no mínimo interessante. É certo que os executivos da Warner esperam um desempenho melhor do que The Flash. Ao que parece, o novo herói já é membro do novo Universo Compartilhado da DC, porém este só começará oficialmente com Superman Legacy (pois é).

O roteiro acompanha Xolo Maridueña (de Cobra Kai) como Jaime Reyes que, recém graduado no college, retorna para sua cidade natal, a fictícia Palmera City. Inadvertidamente, o rapaz é escolhido como hospedeiro de uma inteligência alienígena que, claro, concede a ele um exoesqueleto poderoso. Temos, então, nosso super-herói. A supervilã da vez é interpretada, de modo absolutamente caricatural, por Susan Sarandon.

É triste, no entanto, que o projeto reforce todo tipo de estereótipo sobre latinos. A família grande e numerosa, a falta de individualidade (todos sempre sabem o que se passa na vida de todos), a alegria onipresente (tristeza aqui é tabu), a baixa escolaridade, o gosto por entretenimentos de qualidade duvidosa... Enfim, tudo que o norte-americano médio associa ao imigrante latino. Se já está irritante na franquia do Vin Diesel, imagina num gênero já absolutamente saturado.

E se falei sobre estereótipos, tenho que mencionar também quem não os reproduz. Bruna Marquezine faz um bom trabalho como Jenny, o interesse amoroso do protagonista. O fato dela ser brasileira é mencionado casualmente pelo roteiro, mas sua graça e energia engrandecem o projeto. Sem falar na pronúncia afiada, fugindo ao clichê da atriz latina com inglês questionável. Com bom valor de entretenimento e sequências de ação interessantes, o filme tem uma missão difícil pela frente, ao tentar reacender um gênero fadigado e, especialmente para a Warner, financeiramente decepcionante em 2023.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z e Warner Bros.

terça-feira, 27 de junho de 2023

Crítica: Indiana Jones e a Relíquia do Destino (2023)

Dirigido por: James Mangold. Roteiro de: Jez Butterworth, John-Henry Butterworth, David Koepp e James Mangold. Fotografia de: Phedon Papamichael. Estrelando: Harrison Ford, Phoebe Waller-Bridge, Antonio Banderas, John Rhys-Davies, Toby Jones, Boyd Holbrook, Ethann Isidore e Mads Mikkelsen.

Exatos quinze anos após o polêmico O Reino da Caveira de Cristal, temos o quinto e, teoricamente, último projeto da série Indiana Jones que, iniciada há 42 anos, homenageava os romances pulp e os serials de décadas anteriores. Ao contrário de muitos, eu aprecio o longa de 2008, porém aprecio mais ainda o fato deste novo capítulo ter se livrado de todos os elementos questionáveis do quarto filme. Personagem de Shia LaBeuf? Morto. A Marion de Karen Allen? Desta vez é uma simples ponta. E assim por diante.

Primeiro Indiana não dirigido por Spielberg, Relíquia do Destino apresenta-nos um roteiro que se passa em 1969 e acompanha um Indy prestes a se aposentar. O arqueólogo, no entanto, vê-se obrigado a retornar à ativa para impedir que um poderoso artefato caia nas mãos de um cientista alemão (Mikkelsen) que, mesmo após o fim da Segunda Guerra, ainda se apega a ideais nazistas. Desta vez acompanhado por sua afilhada Helena (Waller-Bridge, excepcional), o professor luta para se adaptar a um mundo em constante transformação, ao passo que lida também com seu próprio envelhecimento.

Competente em seus aspectos técnicos, o filme faz jus ao orçamento vultoso e consegue disfarçar bem o uso do CGI e, com exceção e um ou dois momentos, o uso do chroma key também é bem discreto. O rejuvenescimento digital aplicado na sequência inicial é de tirar o fôlego, provavelmente o melhor já feito até hoje. A fotografia pode não ser tão inventiva quanto já fora, mas certa sequência de perseguição em meio a um desfile está entre as melhores de toda a franquia.

Ciente de interpretar um personagem quase mítico, Harrison Ford encarna-o esta última vez com leveza e propósito. Há algo de reconfortante em saber que, no meio de uma indústria onde quase nada parece ter fim, esta franquia, ao menos por enquanto, tem um.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z, The Walt Disney Company e Paramount Pictures.

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Crítica: Adão Negro (2022)

Dirigido por: Jaume Collet-Serra. Roteiro de: Adam Sztykiel, Rory Haines e Sohrab Noshirvani. Fotografia de: Lawrence Sher. Estrelando: Dwayne Johnson, Marwan Kenzari e Pierce Brosnan.

Adão Negro é um filme que mira em Shazam, Batman, Mulher Maravilha, em alguns filmes da Marvel, e por fim acerta em Homem-Aranha 3. É um projeto que tenta ser muita coisa, e acaba sendo muito pouco. Desperdiçando o potencial do talentosíssimo The Rock, é supreendente que este trabalho tenha sido destinado aos cinemas e não diretamente ao streaming. Parece um filme pertencente ao início dos anos 2000, quando sua fórmula ainda era novidade.

Parte do insucesso, talvez, se deva pela tentativa do roteiro, escrito a seis mãos, de encaixar o anti-herói dos quadrinhos na persona simpática e boa-praça de Johnson. O que já é um erro por si só, pois o ator que deve transformar-se em seu personagem. Desse modo, vemos aqui o clichê do "homem de bom coração que só é violento por ser maltratado e provocado", diluindo o personagem ambíguo e polêmico das HQs.

Ok, provavelmente ninguém esperava que, a essa altura do campeonato, um filme de herói fosse original e inventivo, mas mesmo assim a direção de Jaume Collet-Serra deixou muito a desejar. Responsável pelos eficientes The Shallows (2016) e Jungle Cruise (2021), o cineasta espanhol peca por tentar emular enquadramentos, movimentos de câmera e, também, o apego insuportável à câmera lenta do seu colega Zack Snyder. Ficou faltando apenas a fotografia escura.

No elenco secundário, temos a presença ilustre de Pierce Brosnan como Doutor Destino (uma espécie de Dr. Estranho da DC), que entrega uma performance até interessante, mesmo sabotado pelo roteiro limítrofe. Marwan Kenzari, intérprete que já se mostrou limitadíssimo como Jafar no remake de Aladdin, faz aqui novamente um vilão risível e pouco convincente, quase tão ruim quando o do projeto da Disney.

Por fim, o longa pincela um viés político quase tão bobo quanto suas tentativas de humor, muitas das quais claramente inspiradas por trabalhos do estúdio concorrente. Talvez a única coisa realmente capaz de empolgar a plateia seja o retorno de certo personagem na cena mid-credits. Mais uma vez, infelizmente, vemos a incapacidade (ou resistência) da Warner em entender o que torna seu universo realmente interessante.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z e Warner Bros.

quarta-feira, 30 de março de 2022

Crítica: Morbius (2022)

Dirigido por: Daniel Espinosa. Roteiro de: Matt Sazama e Burk Sharpless. Fotografia de: Oliver Wood. Estrelando: Jared Leto, Matt Smith, Adria Arjona, Jared Harris, Al Madrigal e Tyrese Gibson.

Adiado diversas vezes (a última para que a Sony pudesse continuar capitalizando com Sem Volta Para Casa), o novo projeto do "universo paralelo" do Homem-Aranha requenta o velho conceito do cientista louco convertido em monstro. Deslocado em seu tempo, o longa parece saído dos anos 1990, com estética de videoclipe e personagens unidimensionais.

O roteiro acompanha o médico Michael Morbius (Leto) que, portador de uma rara doença hematológica, criou uma espécie de sangue artificial, que salvou mais vidas do que a penicilina. Decidido a encontrar uma cura para sua própria enfermidade, o cientista tem a brilhante ideia de cruzar o DNA de humanos com o de morcegos-vampiros. Só que, claro, muito é cobrado de quem muito foi dado. Com grandes poderes...

Vilão dos quadrinhos do Homem-Aranha, o "Living Vampire" da Marvel é aqui interpretado por um Jared Leto cuja barba e cabelo comprido tradicionais são sintomáticos do vazio do personagem. Matt Smith, como era de se esperar, está no piloto-automático, e podemos antecipar a reviravolta envolvendo seu personagem no primeiro momento em que o ator entra em cena. E se Adria Arjona é eficiente como o interesse romântico do protagonista, pouco é ajudada pelo roteiro, que contém todo tipo de clichê possível e imaginável. 

É óbvio que, mesmo que este projeto específico represente uma triste interrupção no boom de acertos da Sony, veremos o Dr. Morbius novamente, seja sozinho ou acompanhado. Apesar de ser totalmente esquecível, é possível transformar o personagem num anti-herói interessante com a devida atenção e cuidado. Com a devida atenção e cuidado.

Por Bernardo Argollo

Obs.: há duas cenas mid-credits e nenhuma pós-créditos

Agradecimentos: Espaço Z, Sony Pictures, IMAX Inc. e UCI Orient.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Crítica: Matrix Resurrections (2021)

Dirigido por: Lana Wachowski. Roteiro de: Lana Wachowski, David Mitchell e Aleksandar Hemon. Fotografia de: Daniele Massaccesi. Estrelando: Keanu Reeves, Carrie-Anne Moss, Yahya Abdul-Mateen II, Jessica Henwick, Jonathan Groff, Neil Patrick Harris, Priyanka Chopra Jonas e Jada Pinkett Smith.

Em maio de 1999, quem assistiu Matrix nos cinemas sofreu um impacto como nunca antes visto no cinema. Repleto de cenas de ação fantásticas e filosofia, era diferente de tudo que se tinha visto até então. Depois de duas sequências, animações, livros e referências em várias outras mídias, será que havia ainda o que contar depois de vinte anos?

Depois de assistir Matrix Ressurections, a resposta é sim! O filme começa com um deja vù, mas com a introdução de, uma nova personagem, Bugs (a espetacular Jessica Henwick) que nos apresenta o novo Morpheus, percebemos que muita coisa mudou na Matrix desde o sacrifício de Neo na cidade das máquinas.

Repleto de metalinguagem, o filme acerta no tom de nostalgia, com Lana Wachovski sugerindo uma história dentro da história, com o conceito que a trilogia original foi uma criação de Thomas Anderson (Keanu Reaves), um designer de videogame que revolucionou a cultura pop com sua criação e que agora vive sob a sombra dela. Instigado pelo seu sócio a criar uma sequência para seu jogo original, o filme reintroduz elementos familiares, como a escolha entre manter-se na fantasia ou encarar o mundo real, e personagens repaginados, como o já citado Morpheus, com sua missão de despertar Neo de sua apatia, e o agente Smith, a Nêmesis perfeita do Escolhido.

Com cenas de ação espetaculares, que flertam até com a nova onda de zumbis de Hollywood e uma trilha sonora instigante, Matrix Ressurections nos mostra que o conceito criado há 20 anos atrás está mais atual do que nunca, com o mundo virtual quase substituindo o mundo real.  

Mas é na relação entre Neo e Trinity que o filme ganha coração, mais do que nunca fica evidente que Matrix sempre foi uma história de amor. Com uma química incrível, Carrie-Anne Moss e Keanu Reaves dão credibilidade a todo o universo de Matrix, injetando conexão emocional que contrasta com a frieza das máquinas. A sua jornada de descoberta e empoderamento faz justiça a sua história na trilogia original, resgatando seu papel de coprotagonista da história. 

O filme não possui só acertos. Revisitar uma história que amarrou todas as suas pontas soltas no final é sempre arriscado, e muitas explicações podem soar forçadas, mas Matrix Ressurections soa mais como um epílogo, uma forma de proporcionar um final feliz para Neo e Trinity, respeitando toda a mitologia da trilogia original, e demostrando que a necessidade de reinvenção faz parte da natureza humana. 

Por Ronaldo Acácio

Agradecimentos: Espaço Z, Warner Bros. e todos aqueles presentes na sessão de imprensa de Matrix Ressurections, por acreditarem na experiência inesquecível de assistir um filme no cinema.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Crítica: Eternos (2021)

Dirigido por: Chloé Zhao. Roteiro de: Chloé Zhao, Patrick Burleigh, Ryan Firpo e Kaz Firpo. Fotografia de: Ben Davis. Estrelando: Gemma Chan, Richard Madden, Kumail Nanjiani, Lia McHugh, Don Lee, Harish Patel, Kit Harington, Salma Hayek e Angelina Jolie.

Após Chloé Zhao ter sido agraciada com o Oscar de direção em abril deste ano, toda e qualquer notícia relacionada a Eternos gerou um hype enorme. Cada poster, trailer ou declaração do elenco deixava os fã alvoroçados. De fato, o novo longa da Marvel toma direções intrigantes, ainda que confusas. De todo modo, o projeto tem uma missão ingrata: expandir o lado místico do MCU, bem como explicar vários pontos de sua mitologia.

Desviando da fórmula tradicional do "filme de origem", Eternos traz um olhar mais artístico, autoral. O roteiro acompanha os heróis-título, um grupo composto por seres amortais (e não imortais) que foram enviados à Terra para proteger a humanidade dos Deviantes, criaturas que aterrorizaram nosso planeta na antiguidade e, claro, estão de volta. 

E se até agora não citei o nome de um único membro do elenco, é porque todos têm tempo de tela similar, sendo desenvolvidos quase que igualmente, algo bastante incomum em narrativas sobre múltiplos heróis. Ou seja, não temos a overdose de Angelina Jolie que muitos aventaram, o que é bastante positiva, pois a atriz emprega aqui o mesmo tom monocórdico com o qual recitava as falas de Malévola. Destaco, no entanto, a atuação impecável de Gemma Chan, no seu segundo papel no MCU e Don Lee, ator sul-coreano cujo carisma já se fazia sentir desde Train to Busan (2016).

Bastante inchado em suas duas horas e meia de projeção, o longa aposta numa narrativa não-linear. Mesmo eficiente, lembra a auto-indulgência de Batman v Superman em certos momentos. A bela fotografia de Ben Davis (o mesmo de Cry Macho) chega a incluir trechos rodados em 16mm, contribuindo para uma estética própria em meio ao mundo de produções rodadas em formatos digitais.

Apesar de todos os pontos positivos, creio que Eternos jamais será unanimidade. Primeiro, por mergulhar em questões apenas tangenciadas anteriormente. Em segundo lugar, talvez uma parte do público estranhe certos incidentes da narrativa. Se esse for o seu caso, sugiro que interprete-os de maneira alegórica, não literal. O novo projeto da Marvel é um esforço interessante, que acerta em algumas propostas e falha em muitas outras. Não deixa de ser sintomático, portanto, que a cena pós-créditos seja mais empolgante do que todo o clímax.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z, Walt Disney Studios Motion Pictures e todos aqueles presentes na sessão de imprensa de Eternos, por acreditarem na experiência inesquecível de assistir um filme no cinema.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Crítica: Free Guy - Assumindo o Controle (2021)

Dirigido por: Shawn Levy. Roteiro de: Matt Lieberman e Zak Penn. Fotografia de: George Richmond. Estrelando: Ryan Reynolds, Jodie Comer, Lil Rel Howery, Utkarsh Ambudkar, Joe Keery e Taika Waititi.

Mais cuidadoso com os projetos dos quais participa desde o desastroso Lanterna Verde, Ryan Reynolds conseguiu de fato se estabelecer como ator cômico. Dono de um senso de humor que, felizmente, inclui gags físicas, Reynolds se equilibra bem entre o ousado, o cativante e o amável.

O roteiro de Matt Lieberman e Zak Penn conta a história de Guy (Reynolds), um bancário que, embora curioso e questionador, segue à risca sua nada interessante rotina. Ao se interessar por uma garota, o rapaz reflete sobre a natureza de sua própria existência, descobrindo então ser um NPC (personagem não jogável, na sigla em inglês) do jogo Free City, um RPG. Enquanto isso, no mundo real, a programadora Millie Rusk (Comer) tenta provar que o empresário Antwan (Waititi, inspiradíssimo) roubou o código de um jogo criado por ela e o inseriu em Free City.

Combinando Ready Player One com O Show de Truman (e algumas pitadas de Grand Theft Auto), o projeto ainda consegue ser também uma comédia romântica eficaz. Isto só foi possível, claro, graças à química perfeita entre Jodie Comer e Joe Keery (de Stranger Things), cativantes e vulneráveis na medida certa. E tudo isso embalado pela música-tema de um curta que prefiro manter em segredo.

O longa é inteligente até mesmo na forma com a qual insere comentários sociais sobre questões importantes que ainda fazem parte do mundo dos games, e ainda flerta com ideias mais profundas sobre consciência, sentimentos, e amor. Trazendo pontas de figuras como Chris Evans, Hugh Jackman e The Rock, o projeto agradará também àqueles pouco familiarizados com jogos eletrônicos, sendo capaz de colocar um sorriso no rosto até do mais cético dos espectadores.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z, 20th Century Studios e todos aqueles presentes na sessão de imprensa de Tempo, por acreditarem na experiência inesquecível de assistir um filme no cinema.

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Crítica: O Esquadrão Suicida (2021)

Escrito e dirigido por: James Gunn. Fotografia de: Henry Braham. Estrelando: Margot Robbie, Idris Elba, John Cena, Joel Kinnaman, Sylvester Stallone & Viola Davis.

O Esquadrão Suicida finalmente abraçou sua própria natureza absurdista. A contratação de James Gunn, após o decepcionante primeiro capítulo, foi mesmo uma decisão acertada. Aproveitando o hiato entre sua demissão (e recontratação) pela Disney, o estúdio da AT&T deu ao cineasta liberdade criativa total para conduzir o projeto à sua maneira. O primeiro filme, de David Ayer, foi impiedosamente picotado pelos executivos da Warner. O restultado, todos conhecemos.

Após resetar o universo num prólogo simples e divertido, o roteiro segue os "heróis" numa missão na ilha de Corto Maltese. O país, claro, tem um governo autoritário, daquele tipo já visto centenas de vezes em produções de Hollywood. A Força Tarefa X deve, portanto, derrubá-lo, conforme os interesses do governo americano, aqui representado pela pragmática Amanda Waller (Davis).

Descartando impiedosamente todos os personagens desnecessários, o longa acerta ao encontrar um centro emocional em meio à violência e ao gore. E ninguém melhor para fazer isso do que Margot Robbie, que reprisa o papel de Arlequina e, simultaneamente, mantém a "evolução" conquistada no ótimo Aves de Rapina. Já o britânico Idris Elba consegue fazer com que o Pistoleiro de Will Smith se transforme numa memória distante, nebulosa. John Cena, como era de se esperar, está excelente como o Peacemaker que, em breve, vai ganhar sua própria série.

Pincelando uma discussão política da qual se esquiva logo em seguida, O Esquadrão Suicida é um recomeço otimista. Não é o ápice da criatividade em termos de linguagem, mas provavelmente é o filme mais honesto que James Gunn poderia entregar. Resta-nos torcer para que, uma vez que a Disney finalize Guardiões da Galáxia 3, a Warner capte o cineasta para si definitivamente.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z, Warner Brothers e todos aqueles presentes na sessão de imprensa de O Esquadrão Suicida, por acreditarem na experiência inesquecível de assistir um filme no cinema.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Crítica: Velozes & Furiosos 9 (2021)













Dirigido por: Justin Lin. Roteiro de: Daniel Casey e Justin Lin. Fotografia de: Stephen F. Windon. Estrelando: Vin Diesel, Michelle Rodriguez, Tyrese Gibson, John Cena e Jordana Brewster.

Décimo filme (há um spin-off) da "saga" que começou narrando a história de uma gangue de LA que roubava aparelhos de DVD, a série Velozes se transformou na franquia mais lucrativa da Universal. Começou despretensiosamente. Vinte anos depois, atravessou a última fronteira: o espaço. O que virá nos próximos filmes, viagens intergaláticas? Se houver uma ponta da Helen Mirren, poderia ser interessante...

Evitando uma trama excessivamente complexa, erro comum de tantos filmes do gênero, o roteiro agora nos apresenta o espião Jakob (Cena), irmão perdido de Dom (Diesel), que, nunca antes citado, reapareceu com um plano terrível de dominação mundial (e podia ser diferente?). Assim, Dom se vê obrigado a reunir seus colegas para uma última (cof cof) missão, interrompendo a vida tranquila que iniciara ao lado de Letty (Rodriguez).

Tendo comandado quatro Velozes (seu último foi o eficiente sexto capítulo, em 2013), Justin Lin retorna para a direção após um hiato de dois filmes, com a consciência de que aqui tudo precisa ser maior e mais grandioso. Um dos responsáveis pelo rebranding da franquia, Lin agora encara seu protagonista como um quase super-herói.

Por outro lado, vemos novamente situações que já se tornaram clichê de tão usadas pela série, como os famigerados personagens que voltam à vida. E, claro, a invasão de um sistema enquanto uma barra de progresso mostra a ação, em pleno 2021. Desta vez, no entanto, a tradicional conversão de um vilão em mocinho no terceiro ato é perdoável, já que o carisma e energia infindáveis de John Cena merecem ser aproveitados nas continuações. 

Divertido ao fazer piadinhas com seus próprios absurdos, o longa recria cenas, repete fórmulas e introduz até mesmo uma hero's journey para Vin Diesel em meio aos carros de ponta e efeitos visuais sem fim. A Universal reinventou sua franquia e, agora, prefere não mexer em time que está ganhando. É sempre bom ser prudente, especialmente numa indústria que raramente dá uma segunda chance.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z, Warner Bros., Univesal Pictures e todos aqueles presentes na sessão de imprensa de Velozes & Furiosos 9, por acreditarem na experiência inesquecível de assistir um filme no cinema.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Crítica: Aqueles Que Me Desejam a Morte (2021)

Escrito e dirigido por: Taylor Sheridan. Fotografia de: Ben Richardson. Estrelando: Angelina Jolie, Finn Little, Nicholas Hoult, Aidan Gillen, Jake Weber, Medina Senghore e Jon Bernthal.

Aqueles Que Me Desejam a Morte é, no mínimo, anacrônico. Ainda que seja um representante do gênero neo-western, que ganhou força nos anos 2010 graças à série Breaking Bad, o projeto parece saído diretamente dos anos 1990. Finalizado desde a metade de 2019, o longa não teve uma campanha de marketing muito incisiva por parte de Warner, apesar do elenco estelar.

Dirigido por Taylor Sheridan (responsável pelo roteiro do magnífico Hell or High Water), o projeto acompanha um garoto (Little, excelente) que, fugindo de dois assassinos profissionais, encontra na bombeira florestal Hannah (Jolie) sua única chance de escape. Hannah, por sua vez, ainda se recupera da perda de três pessoas num incêndio do último verão.

Baseado no livro de Michael Koryta, que co-escreveu o roteiro, o longa aposta numa estrutura esquisita que nunca se justifica, inciando-se com uma bela sequência que estabelece seus vilões e ignorando completamente a protagonista até o segundo ato, o que não só configura grave erro narrativo, como também gera pistas que jamais conduzem a uma recompensa. Certo personagem, cuja identidade não revelarei, surge em uma única cena e, mesmo tendo seu regresso insinuado, jamais aparece novamente ou diz a que veio. Conhecendo a obra de Sheridan, a única explicação possível é uma remontagem após maus resultados em test screenings. Como diz Peter Jackson, mais tempo disponível nem sempre resulta num filme melhor,

Aparentemente mais seleta nos papéis que interpreta, e ao mesmo tempo incapaz de ignorar os paychecks da Disney, Jolie faz aqui uma heroína de ação como já não interpretava há bons anos. Ainda que suas motivações nunca sejam exploradas, ela tem carisma suficiente para ignoremos os vilões que, embora inteligentíssimos, tomam decisões convenientemente erradas em momentos chave. De todo modo, o que não dá mesmo para perdoar é o uso da gravidez de certa personagem como recurso apenas dramático, sem qualquer função ou objetivo na narrativa. Se fosse Spielberg eu até entenderia, mas Sheridan?

Reciclando o tema de homem vs. natureza numa área isolada dos EUA, o projeto recria todos os elementos que já esperaríamos, como as perseguições em locais remotos, os planos amplos que descortinam paisagens e a fotografia sempre drenada de cores. Só que, desta vez, temos um roteiro mediano e personagens unidimensionais. Taylor Sheridan se contentou com o básico pela primeira vez em sua carreira. Temos a Angelina Jolie, pelo menos.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Warner Bros., Espaço Z e todos aqueles presentes na sessão de imprensa de Aqueles Que Me Desejam a Morte, por acreditarem na experiência inesquecível de assistir um filme no cinema.

#filmenocinema

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Crítica: Monster Hunter (2020)








Escrito e dirigido por: Paul W. S. Anderson. Fotografia de: Glen MacPherson. Estrelando: Milla Jovovich, Tony Jaa, Tip "T.I." Harris, Meagan Good, Diego Boneta, Josh Helman, Jin Au-Yeung e Ron Perlman.

Em uma dimensão paralela onde humanos e monstros gigantes coabitam, um guerreiro é separado de seus companheiros e deve lutar pela sobrevivência sozinho. No planeta Terra, uma capitã do exército e seu time vasculham o deserto em busca de soldados perdidos, quando uma tempestade os transporta para o Novo Mundo, onde encontram os restos dos colegas e, claro, perigo mortal.

E é com esse fiapo de história que o diretor Paul W. S. Anderson tenta sustentar seu novo longa. Baseado na série de vídeo games da Capcom (os quais confesso não ter jogado), o cineasta investe numa estética provavelmente oriunda destes. No Novo Mundo, onde quase toda narrativa se passa, as cores são obviamente saturadas e os figurinos estilizados, aos poucos passando a vestir também a protagonista, interpretada pela esposa e colaboradora habitual de Anderson, Milla Jovovich.

Ainda que peque pelo roteiro frágil e unidimensionalidade de seus personagens, Anderson consegue prender nossa atenção com suas longas e grandiosas cenas de ação. É uma pena que estas sejam ligadas umas às outras por fade-outs tão, mas tão insistentes (parei de contar no sexto) que cheguei a me perguntar se o montador Doobie White não conhecia outra forma de transição. Ao menos sua montagem permite que vejamos quem luta contra quem.

Se as sequências de ação entretém, o design das criaturas é o que já esperaríamos de uma pradução desse tipo. Ainda que concebidas com eficiência e realizadas com CGI irrepreensível, os kaiju aqui vistos apresentam anatomias que, em 2021, só conseguem remeter a filmes muito melhores. O que nos traz à química entre Jovovich e o ator tailandês Tony Jaa. A dinâmica entre eles, bonitinha até, acerta por estabelecer suas (únicas) características definidoras com economia, e merece também aplausos por evitar o irritante clichê do estrangeiro que, antes confinado à sua língua nativa, já está falando inglês sem sotaque duas cenas depois.

Finalizado com um gancho mais escancarado que o habitual, Monster Hunter parece confiante em sua própria capacidade de resistir às intempéries e, quem sabe, tornar-se a primeira franquia surgida durante a pandemia de COVID-19. Paul W. S. Anderson entrará para a História do Cinema?

Por Bernardo Argollo


Agradecimentos: Sony Pictures, Espaço Z e a todos aqueles presentes na sessão de imprensa de Monster Hunter, por acreditarem na experiência inesquecível de assistir um filme no cinema.

#filmenocinema

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Crítica: Zumbilândia 2 - Atire Duas Vezes (2019)













Dirigido por: Ruben Fleischer. Roteiro de: Rhett Reese, Paul Wernick e Dave Callaham. Fotografia de: Chung Chung-hoon. Estrelando: Woody Harrelson, Jesse Eisenberg, Abigail Breslin, Emma Stone e Rosario Dawson.

Dez anos após o incrível Zumbilândia, o diretor Ruben Fleischer retorna para esta continuação que, embora aqui e ali traga o gostinho do original, falha em seu propósito principal, sem conseguir replicar a experiência do filme de 2009. O foco nos carismáticos personagens continua, mesmo em meio a novas "espécies" de zumbi, uma delas bem mais difícil de matar que as criaturas do filme anterior.


Mais uma vez, acompanhamos a jornada da família composta pelo durão Tallahassee (Harrelson), seu fiel escudeiro Columbus (Eisenberg), a instável Wichita (Stone) e sua irmã Little Rock (Breslin, agora adulta). Morando na Casa Branca, os andarilhos parecem ter, finalmente, fixado residência. É uma questão de tempo até que eles se vejam forçados a romper seus laços. Afinal, o mundo é dominado por zumbis.


Recorrendo ao velho truque do road movie, Atire Duas Vezes até consegue passar a impressão de que algo realmente está acontecendo, quando na verdade é apenas o cenário que está mudando. Visualmente inventivo e com um design de produção afiado, temos aqui sets que dificilmente serão esquecidos, desde o museu dedicado a um certo cantor até a comunidade hippie que, habitando um arranha-céu abandonado, parece incapaz de reconhecer a ameaça representada pelos mortos-vivos.


Como quase toda continuação de comédia, o longa se vê preso à necessidade de reprisar situações de seu antecessor, bem como investe em gags que, embora engraçadas a princípio, cansam pela insistência, como a sequência envolvendo os "sósias" de Harrelson e Eisenberg. Já Emma Stone, eficiente como de hábito, acerta por não tentar fazer graça com sua Wichita, fazendo com que as piadas surjam naturalmente. Há um ou dois momentos realmente inspirados, envolvendo o fato daquele universo ter estagnado há mais de dez anos.


Embora não seja particularmente bem escrito ou atuado, o projeto tem carisma suficiente para se destacar em meio ao excesso de continuações que são lançadas todos os anos. Mais ambicioso que o original em suas sequências de ação, graças ao orçamento mais generoso e, claro, à experiência que o cineasta adquiriu nestes anos, Zumbilândia 2 se beneficia de uma duração breve. Além disso, traz aquela que é provavelmente uma das melhores cenas envolvendo zumbis da história do gênero. É o bastante para animar até o mais sisudo dos espectadores.


P.S.: fiquem até o fim dos créditos. Fiquem. Mesmo.


Por Bernardo Argollo


Agradecimentos: Espaço Z e Sony Pictures

terça-feira, 2 de julho de 2019

Crítica: Homem-Aranha - Longe de Casa (2019)













Dirigido por: Jon Watts. Roteiro de: Chris McKenna e Erik Sommers. Fotografia de: Matthew J. Lloyd. Estrelando: Tom Holland, Samuel L. Jackson, Zendaya, Marisa Tomei, Jake Gyllenhaal, Jacob Batalon e Jon Favreau.

Homem-Aranha: Longe de Casa começa logo após os eventos de Vingadores: Ultimato, sendo o último filme da Saga do Infinito. Enlutado pela perda de Tony Stark, o Cabeça de Teia ainda tem de lidar com a pressão por saber quem será o sucessor do seu antigo mentor. Com o cargo vago, em meio ao mundo pós-blip, o jogo está aberto.

Novamente comandado por Jon Watts, o longa retrata uma viagem escolar para a Europa, o que não é apenas eficiente do ponto de vista da ambientação (afinal, ninguém aguenta mais ver Nova York indo pelos ares) como representa bem a ideia de um novo começo para os personagens. No entanto, eles dificilmente conseguirão descansar, já que Nick Fury (Jackson) acaba recrutando Peter (Holland) para ajudá-lo a derrotar criaturas conhecidas como Elementais, que vêm causando catástrofes por todo o mundo. Para tanto, ele se juntará a Mysterio (Gyllenhaal), um novo super herói cujas reais intenções são mais sombrias do que parecem.


A ação aqui é bem mais interessante do que aquela vista em De Volta ao Lar. Se as sequências de ação do filme de 2017 foram concebidas como uma coleção de cortes frenéticos e movimentos incompreensíveis, aqui podemos observar com clareza a geografia da cena, bem como quem se move em direção a quem. Tal abordagem, por sua vez, se faz essencial para a narrativa, pela própria natureza do Mysterio, interpretado com eficiência por Jake Gyllenhaal.


Apostando num elenco que agrada pela diversidade, desde o contraste entre Ned e Betty até a garota que usa hijab, Watts é esperto ao perceber que o carisma de Tom Holland é o que realmente sustenta o filme. O jovem ator retrata bem o conflito interno de seu personagem, indeciso sobre levar a vida de um adolescente normal ou abraçar sem reservas seu lado herói. E como todo herói tem um mentor, desta vez a tarefa cabe ao improvável Happy (Favreau, diretor de Mogli e O Rei Leão), que não somente a cumpre, como também serve de alívio cômico.


De todo modo, o projeto é suficientemente divertido, moderno e inteligente o suficiente para merecer uma inequívoca recomendação. Mesmo investindo numa fórmula já desgastada, o MCU prova que ainda têm boas histórias para contar. Preparando o terreno para a nova fase da Marvel, mas sem soar como mero trailer de episódios futuros, o longa introduz novos elementos que certamente serão importantes nas próximas fases. Aguardemos.


P.S.: Há duas importantíssimas cenas pós-créditos.


Por Bernardo Argollo


Agradecimentos: Espaço Z e Sony Pictures.

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