quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Crítica: Escape Room (2019)













Dirigido por: Adam Robitel. Roteiro de: Bragi F. Schut, Maria Melnik. Estrelando: Taylor Russell, Logan Miller, Deborah Ann Woll, Tyler Labine, Jay Ellis, Nik Dodani.

Com a estreia de Jogos Mortais, em 2004, o subgênero torture movie conseguiu uma visibilidade nunca antes imaginada. Servindo de inspiração para diversos filmes, desde o estúpido Hostel até o excelente O Segredo da Cabana, o longa agora inspira mais um diretor.


O roteiro acompanha seis pessoas, de diversas idades e profissões, que participam de uma brincadeira de escape room, aquelas salas em que o participante deve escapar dentro de um tempo pré-definido, por meio de pistas nelas inclusas. Só que, desta vez, o vencedor ganhará o prêmio de 10 mil dólares.


Pouco ambicioso e estruturalmente problemático, o longa opta por uma clássica introdução in media res, que depois percebemos ser uma muleta narrativa para disfarçar o terceiro ato anticlimático. Na maior parte das vezes, a impressão que surge é que os roteiristas apenas pensaram em situações que poderiam ser interessantes, atirando-as na narrativa com o provável intuito de desenvolvê-las posteriormente (e, claro, esquecendo-se de fazer isso).


Nunca imaginei que um dia escreveria isso, mas confesso que em certos momentos cheguei a torcer para que os realizadores parassem de tentar desenvolver os personagens e se concentrassem apenas na ação. Digo isto porque os flashbacks sobre o passado de cada um eram demasiado estúpidos, piegas ou simplesmente constrangedores.


Errando ao fornecer respostas para perguntas que, ao serem esclarecidas, geram apenas desencanto, o longa ainda investe em pontas soltas para uma possível continuação. Escape Room não é um projeto ofensivamente ruim, mas é mediano o suficiente para nos fazer lamentar o desperdício de mais uma premissa interessante. 


Por Bernardo Argollo


Agradecimentos: Espaço Z e Sony Pictures.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Crítica: Uma Aventura LEGO® 2 (2019)













Dirigido por: Mike Mitchell. Roteiro de: Phil Lord, Christopher Miller. Estrelando: Chris Pratt, Elizabeth Banks, Will Arnett, Tiffany Haddish.

Uma Aventura LEGO foi uma das animações mais surpreendentes de 2014, com seu roteiro ágil, piadas precisas e imaginação imensa. Seguida por dois spin-offs, o ótimo The LEGO Batman Movie e o medíocre LEGO Ninjago, agora a Warner finalmente lança a continuação propriamente dita.

Novamente acompanhando as peripécias do construtor Emmet (Pratt), o roteiro inicia-se imediatamente após os acontecimentos do filme anterior, no qual Emmet e seus amigos enfrentam a ameaça do planeta Duplo. Depois de uma guerra devastadora que transformou a cidade em um universo pós-apocalíptico, Batman (Arnett), Lucy (Banks) e outros são sequestrados pela rainha Tuduki Eukiser'ser (Haddish). Sem mais spoilers, portanto, Emmet parte para o resgate.

Como de costume, Uma Aventura LEGO 2 conta com a participação de praticamente todos os personagens de HQs e cultura pop sobre os quais a Warner detém os direitos. Alguns exercem alguma função na trama, já outros a simples aparição se torna um fim em si mesma. De todo modo, é divertido acompanhar as trapalhadas de Emmet e o narcisismo do Batman, cuja voz incrivelmente grave de Will Arnett deixa todas as falas engraçadas.

Apresentando mundos construídos em LEGO bem menos imaginativos do que os vistos nos filmes anteriores, o longa aposta numa quantidade de canções bem acima do ideal. E, provavelmente julgando que sua alfinetada nas letras fáceis de canções pop contemporâneas não ficou clara o bastante, o diretor chega a empregar quatro números musicais com o mesmo objetivo.

Apesar de tantos problemas, o projeto representa uma estratégia interessante por parte da  divisão de animação da Warner, que decidiu focar primeiro em derivados, lançando a continuação somente meia década depois. Ainda que os realizadores pareçam afobados demais para sugerir irreverência, o projeto é ágil o suficiente para entreter crianças e adultos.

Por Bernardo Argollo

P.S.: não deixe de conferir os créditos finais.

Agradecimentos: Espaço Z e Warner Bros.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Crítica: Green Book - O Guia (2018)



Dirigido por: Peter Farrelly. Roteiro de: Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie, Peter Farrelly. Estrelando: Viggo Mortensen, Mahershala Ali, Linda Cardellini.

Tony Vallelonga (Mortensen, de O Senhor dos Anéis) é um segurança de boate ítalo-americano que, sem emprego, aceita virar motorista de um pianista negro (Ali) em turnê no sul dos EUA, nos anos 1960. O título é uma referência a um guia de viagem que indicava para os afro-americanos os hotéis e restaurantes mais seguros, de modo a evitar "problemas".


Espécie de Conduzindo Miss Daisy com papéis invertidos, o longa toca em questões delicadas ao contrapor a (doce) ignorância de Tony à erudição de Shirley. Após um extenso prólogo no qual estudamos o estilo de vida, os empregos incertos e a dinâmica familiar de Tony, acompanhamos o tour pelo sul dos Estados Unidos. É aí que o roteiro se perde um pouco, falhando em não aproveitar as trocas de cenários típicas do road movie, repetindo situações com uma certa autoindulgência.


Se valendo do selo "história real" para conferir autenticidade a uma série de eventos que, embora bonitos, soam improváveis, Farrelly investe numa fotografia colorida dissociada da temática pesada. Diretor de boas comédias como Quem vai ficar com Mary? e Debi & Loide, ele aborda o material com extrema confiança, de modo que reduzir o filme a um mero esforço documental é, sem dúvida, subestimar a capacidade de seu realizador em contar histórias significativas, tenham sido inspiradas por fatos ou não.


Sem medo de se entregar ao estereótipo do glutão italiano, Viggo Mortensen exibe a presença marcante que o transformou em astro internacional, carregando o filme com segurança absoluta. Já Mahershala Ali, ator igualmente competente, percorre um caminho diferente com seu Dr. Shirley, desconstruindo-o durante a narrativa.


Green Book é divertido, ágil e despretensiosamente tocante. Sensível sem ser piegas, Farrelly sai da zona de conforto ao abraçar outro gênero. Ainda que evite qualquer aprofundamento nas questões que pretende discutir, o filme é um belo retrato da construção da tolerância. A indicação ao Oscar de Melhor Filme é mais do que justa.


Por Bernardo Argollo


Agradecimentos: Diamond Films.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Crítica: A Favorita (2018)













Dirigido por: Yorgos Lanthimos. Roteiro de: Deborah Davis, Tony McNamara. Estrelando: Olivia Colman, Emma Stone, Rachel Weisz, Nicholas Hoult, Joe Alwyn.

Terceiro filme em inglês do grego Yorgos Lanthimos, A Favorita é um projeto que não teme dividir-se entre a irreverência, o absurdo, o humor e o desconforto. Assim como nos seus dois últimos filmes, Lanthimos não teme incomodar os puritanos com seu humor ácido. Ao contrário de alguns realizadores, que utilizam o choque como um fim em si mesmo, ele demonstra sua visão por meio de uma lógica interna tangível, mas nem sempre óbvia.


Ambientado no início do século XVIII, quando a Inglaterra travava uma guerra com a França, o filme acompanha a rainha Anne (Colman) que, propensa a enfermidades, encontra conforto no auxílio de Lady Marlborough (Weisz). Misto de dama de companhia, amante, governanta e secretária de Estado, Marlborough vê sua posição ser ameaçada pela chegada de uma moça mais nova (Stone), que logo se torna a preferida de Sua Majestade.


A Favorita faz o que é esperado em termos de figurino, maquiagem e design de produção. Vemos em tela o capricho típico de produções de época, que certamente será indicado a vários prêmios. Já a fotografia foge do convencional ao empregar lentes grandes angulares e luz natural, ressaltando o universo tortuoso no qual aquelas figuras vivem (e tornando-as ainda mais vulneráveis). O desenho de som, contudo, foge do tom estritamente histórico ao empregar composições atuais em sua trilha, utilizando também ruídos diegéticos para tornar certas passagens ainda mais inquietantes.


Atriz desconhecida do grande público, a britânica Olivia Colman se junta ao rol de intérpretes que se consagraram interpretando rainhas inglesas. Numa composição impecável, Colman abraça a repugnância daquela mulher com entrega total, de modo a evocar compaixão e nojo simultaneamente, o que não é tafera fácil. De modo semelhante, Stone é capaz de despertar nossa simpatia com performance cheia de nuances. Já Weisz faz um belo trabalho ao criar uma figura que luta pelo poder, carregando na fala e no olhar o ressentimento por ser mulher.


Trazendo ainda uma divertida referência a um de seus trabalhos anteriores, o longa encerra-se com uma nota alta. Certamente, continuará com o espectador após a projeção, despertando reflexões sobre seus simbolismos e ideias, que oscilam entre o humor pastelão e o puro horror.


Por Bernardo Argollo


Agradecimentos: Espaço Z e Fox Searchlight.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Crítica: Homem-aranha - No Aranhaverso (2018)













Dirigido por: Bob Persichetti, Peter Ramsey, Rodney Rothman. Roteiro de: Phil Lord, Rodney Rothman. Estrelando: Shameik Moore, Jake Johnson, Chris Pine, Hailee Steinfeld, Liev Schreiber.

Novo filme da Sony Animation, Aranhaverso é a sétima aventura estrelada pelo Homem-aranha. Sem tentar imitar os traços e estilo da Disney, como tantos estúdios de animação insistem em fazer, a Sony apresenta um projeto que soará familiar para os leitores de quadrinhos, agradando também a todos os outros.

O roteiro concentra-se em Miles Morales (Moore) que, após ser mordido por uma aranha geneticamente modificada, conhece outros heróis com poderes bem similares, habitando dimensões paralelas. Agora, Morales precisa se juntar a eles para derrotar o Rei do Crime (Schreiber), antes que este execute um plano sinistro que resultará em catástrofe para todas as pessoas-aranha. Como já é de costume em narrativas protagonizadas pelo Aranha, há momentos dramáticos envolvendo relações familiares e o equilíbrio entre as ocupações do cotidiano e obrigações como super-herói.

Visualmente interessante, o longa acerta ao empregar uma linguagem bem similar à dos quadrinhos, com onomatopeias, balões, split-screens e paleta sempre saturada. Até mesmo técnicas de impressão de HQs são homenageadas aqui, como os pontos Ben-Day, algo que só aumenta o charme da produção. E, desse modo, acompanhamos a trajetória dos heróis, cada um com superpoderes únicos, ressaltados em cada batalha por meio de divertidos efeitos psicodélicos.


Trazendo como tema central a dinâmica mentor-aprendiz tão comum em filmes do gênero, o longa se diverte empregando um Peter Parker em fim de carreira como contraponto ao pai superprotetor do protagonista. E, falando em personagens, o time de dubladores escolhidos é de tirar o fôlego. Mesmo sem terem muito tempo de tela, Nicolas Cage e John Mulaney conseguiram provocar riso e dar diferentes tons ao Spider Noir e Peter Porker, respectivamente. Já Hailee Steinfeld (de Bumblebee), umas das atrizes mais versáteis da nova geração, dubla a moradora da versão mais interessante do multiverso.


Focado quase inteiramente no humor, Aranhaverso aposta em todo tipo de piada possível e imaginável. Diferente de todos os filmes baseados no personagem e ao mesmo tempo maravilhosamente familiar, merece uma grande e inequívoca recomendação, mesmo que nos limitemos a apreciá-lo como um exercício de metalinguagem.


P.S.: Há uma divertidíssima cena pós-créditos.


Por Bernardo Argollo


Agradecimentos: Espaço Z e Sony Pictures.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Crítica: Bumblebee (2018)













Dirigido por: Travis Knight. Roteiro de: Christina Hodson. Estrelando: Hailee Steinfeld, John Cena, Jorge Lendeborg Jr., Stephen Schneider.

Se há algo que nunca devemos fazer, é criar expectativa acerca de um filme. E Bumblebee é um bom exemplo disso. Spin-off de um saga que, filme após filme, conseguiu provar que não há limites para a estupidez, este novo projeto surpreende pela leveza e roteiro afiado.

Comandado por Travis Knight (do ótimo Kubo e as Cordas Mágicas), o longa se passa em 1987, vinte anos antes dos acontecimentos vistos no primeiro Transformers. Aqui, acompanhamos a trajetória da garota Charlie (Steinfeld) que, interessada por mecânica automotiva, encontra um fusca amarelo em um ferro-velho. Esse fusca, porém, é na verdade um robô enviado por Optimus Prime para estabelecer, na Terra, uma base segura para os Autobots se refugiarem dos temíveis Decepticons.


Felizmente, o filme se concentra na relação entre a garota e o simpático transformer, e não em guerras entre facções de robôs. Se em outros longas da série éramos obrigados a acompanhar longas sequências de batalhas, diálogos absurdos, pitadas de humor racista e Mark Wahlberg como cientista (pois é), aqui temos uma narrativa mais simples e acessível.

Reminiscente de filmes como E.T.: O Extraterrestre, Bumblebee traz aquela eterna história sobre o convívio com o diferente e a amizade que ultrapassa qualquer obstáculo. A protagonista, vivida por Hailee Steinfeld como uma garota forte e determinada, tem uma química perfeita com o desajeitado Autobot. E se as referências musicais aos anos 1980 cansam pela insistência e aleatoriedade, a direção segura de Knight contorna este problema com uma mis-en-scène precisa e enquadramentos certeiros, de modo que as batalhas não se tornam uma confusão ininteligível. Tomara que Michael Bay aprenda com ele.

Em meio a tiradas divertidas e humor leve, é interessante notarmos a sutil crítica à mentalidade da Guerra Fria, ressaltada pela ótima performance de John Cena, de O Touro Ferdinando. Os personagens secundários também conseguem se estabelecer sem chamar atenção desnecessária para si mesmos ou parecer caricaturas. Por fim, Bumblebee é esteticamente interessante e divertido o suficiente para reavivar nosso interesse por batalhas envolvendo robôs gigantes.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z e Paramount Pictures.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Crítica: Aquaman (2018)













Dirigido por: James Wan. Roteiro de: David Leslie Johnson-McGoldrick, Will Beall. Estrelando: Jason Momoa, Amber Head, Willem Dafoe, Patrick Wilson, Dolph Lundgren e Nicole Kidman.

Sempre uma figura periférica no universo de heróis da DC, o Aquaman nunca recebeu qualquer tipo de destaque. Foi motivo de piada até Zack Snyder reinventá-lo para o cinema. Antes loiro e andrógino, agora é representado pela figura bem mais corpulenta de Jason Momoa, de Game of Thrones. Da mesma forma que certos heróis secundários da Marvel foram introduzidos de maneira interessante no Cinema, na DC os humilhados também estão sendo exaltados.

Dirigido por James Wan (da fantástica série Invocação do Mal), este filme é ao mesmo tempo história de origem e sequência de Liga da Justiça. Ambientado um ano depois deste, o roteiro acompanha a saga do personagem-título para reaver o trono de Atlântida, comandada por seu meio-irmão Orm (Wilson, sempre ótimo), evitando assim uma guerra entre a superfície e os diversos reinos submersos. 


Sem abusar de flashbacks ou exposições desnecessárias, o projeto é ágil ao introduzir o caráter e as motivações do herói. Em pouco tempo, vemos a negação do dever, o interesse romântico, a mãe complicada (típica da DC), bem como as pontas soltas para eventuais continuações. Felizmente, o longa encontra o equilíbrio entre se levar a sério e a autoparódia, algo até então inédito nesta franquia que, seguindo o padrão estabelecido por Snyder em O Homem de Aço, tende a apostar num tom mais sombrio.

Esquecendo a paleta dessaturada e cinzenta também típica da DC, Aquaman investe numa fotografia rica, colorida e que, mesmo pendendo para o cafona, nunca deixa de parecer épica. O design de produção concebido pelo veterano Bill Brzeski como uma mistura de Duna (1984) e Avatar não se parece com nada já visto em um filme do gênero, estabelecendo-se desde já como algo inventivo e único. No que tange à direção, Wan acerta por evitar a confusão visual, estabelecendo com eficiência a geografia das cenas ao mesmo tempo em que exercita seu estilo com belíssimos travellings circulares.

Por fim, nada disso seria viável sem o carisma de Momoa que, mesmo sem um timing cômico muito apurado, consegue nos fazer rir por sua autenticidade e expressividade sem fim. Amber Heard e Willem Dafoe estão no piloto automático e Nicole Kidman pouco tem a fazer como a rainha Atlanna. Destaque para o sueco Dolph Lundgren, ator que admiro, participando aqui de seu primeiro bom filme em uns 20 anos.


Pouco se sabe sobre o futuro da franquia expandida da DC. Há vários projetos de filmes não-canônicos e incertezas sobre a permanência de atores. De qualquer forma, é admirável perceber que esse universo compartilhado só está de pé graças a uma obra estrelada e dirigida por mulheres e, agora, outra realizada por um asiático e protagonizada por um havaiano. "O brave new world that has such people in it. Let's start at once."


P.S.: Os soteropolitanos muito atentos notarão que sua cidade fez uma pontinha :)


Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z e Warner Bros.

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