quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Crítica: A Freira 2 (2023)

Dirigido por: Michael Chaves. Roteiro de: Ian Goldberg, Richard Naing e Akela Cooper. Fotografia de: Tristan Nyby. Estrelando: Taissa Farmiga, Jonas Bloquet, Storm Reid, Anna Popplewell e Bonnie Aarons.

Responsável pelo pavoroso A Maldição da Chorona e pelo mediano Invocação do Mal 3, Michael Chaves ataca novamente. Por algum motivo que só os executivos da Warner sabem, o "cineasta" ganhou mais um voto de confiança, recebendo a tarefa de comandar a continuação (do já problemático) A Freira. O filme de 2018 trouxe inconsistências narrativas imperdoáveis, mas fez algum sucesso com sua atmosfera carregada e performances contumazes.

O roteiro, escrito a seis mãos, acompanha novamente a noviça Irene (Taissa Farmiga). Agora acompanhada da colega Debra (a medíocre Storm Reid), ela mais uma vez tem que enfrentar o demônio Valak. Já o jovem Maurice (Bloquet), agora trabalha como servente num internato francês, onde uma capela bombardeada durante a Segunda Guerra permanece sempre trancada.

A Freira 2 é um terror de inspiração gótica que não sabe o que fazer com seus elementos. Com a exceção de uma cena afiada envolvendo uma banca de revistas, os set pieces vistos aqui pouco têm de eficazes, e adicionam apenas sustos vazios para o rico universo da franquia concebida por James Wan. Lançado no mesmo ano de Fale Comigo e Evil Dead Rise, fica difícil defender este projeto.

Esta continuação é, sem sombra de dúvidas, o segundo pior filme da fraquia. O primeiro, é claro, já foi citado no início do texto. Sustentado pelo carisma de Taissa Farmiga e por um ou outro jump scare mais inspirado, o longa é prejudicado por um roteiro pedestre e ritmo irregular, com reviravoltas dignas de uma novela da Globo. É triste quando um storytelling ruim suga todo o potencial de um filme. Que falta faz uma Annabelle...

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z e Warner Bros.

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Crítica: Besouro Azul (2023)

Dirigido por: Ángel Manuel Soto. Roteiro de: Gareth Dunnet-Alcocer. Fotografia de: Pawel Pogorzelski. Estrelando: Xolo Maridueña, Bruna Marquezine, Adriana Barraza, Damián Alcázar, Raoul Max Trujillo e Susan Sarandon.

Primeiro filme da DC centrado num herói latino e penúltimo filme do DCEU, antes de sua repaginada, Besouro Azul é um projeto no mínimo interessante. É certo que os executivos da Warner esperam um desempenho melhor do que The Flash. Ao que parece, o novo herói já é membro do novo Universo Compartilhado da DC, porém este só começará oficialmente com Superman Legacy (pois é).

O roteiro acompanha Xolo Maridueña (de Cobra Kai) como Jaime Reyes que, recém graduado no college, retorna para sua cidade natal, a fictícia Palmera City. Inadvertidamente, o rapaz é escolhido como hospedeiro de uma inteligência alienígena que, claro, concede a ele um exoesqueleto poderoso. Temos, então, nosso super-herói. A supervilã da vez é interpretada, de modo absolutamente caricatural, por Susan Sarandon.

É triste, no entanto, que o projeto reforce todo tipo de estereótipo sobre latinos. A família grande e numerosa, a falta de individualidade (todos sempre sabem o que se passa na vida de todos), a alegria onipresente (tristeza aqui é tabu), a baixa escolaridade, o gosto por entretenimentos de qualidade duvidosa... Enfim, tudo que o norte-americano médio associa ao imigrante latino. Se já está irritante na franquia do Vin Diesel, imagina num gênero já absolutamente saturado.

E se falei sobre estereótipos, tenho que mencionar também quem não os reproduz. Bruna Marquezine faz um bom trabalho como Jenny, o interesse amoroso do protagonista. O fato dela ser brasileira é mencionado casualmente pelo roteiro, mas sua graça e energia engrandecem o projeto. Sem falar na pronúncia afiada, fugindo ao clichê da atriz latina com inglês questionável. Com bom valor de entretenimento e sequências de ação interessantes, o filme tem uma missão difícil pela frente, ao tentar reacender um gênero fadigado e, especialmente para a Warner, financeiramente decepcionante em 2023.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z e Warner Bros.

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Crítica: Fale Comigo (2022)

Dirigido por: Danny e Michael Philippou. Roteiro de: Danny Philippou e Bill Hinzman
. Fotografia de: Aaron McLisky. Estrelando: 
Sophie Wilde, Alexandra Jensen, Joe Bird, Otis Dhanji e Miranda Otto.

Horror exibido pela primeira vez ainda em 2022, no Adelaide Film Festival, Austrália, Talk to Me (milagrosamente, não ganhou subtítulo no Brasil) gerou hype suficiente para chegar ao Festival de Sundance e ganhar distribuição pela A24. Ambientado na mesma cidade que sediou sua première, e dirigido por dois irmãos gêmeos já conhecidos no YouTube, o projeto explora o sobrenatural por meio de temas já batidos, é verdade, mas o roteiro e atuações conseguem ser envolventes o suficiente para cativar o espectador. Primeiro trabalho cinematográfico da dupla, o filme é extremamente promissor tanto em narrativa quanto em linguagem. No Brasil, a distribuição ficou a cargo da Diamond Films.

A trama, concebida por Danny Philippou e Bill Hinzman, gira em torno de um grupo de jovens que, claro, descobrem uma maneira nada prudente de se entreter em festas: uma mão embalsamada, capaz de contactar o mundo dos mortos. Até aí, tudo bem, é uma premissa tradicional de filmes sobre espíritos. À princípio temerosa com a "brincadeira", a jovem Mia (Wild) descobre segredos obscuros a partir do objeto sobrenatural, e a linha entre os vivos e os mortos começa a desaparecer.

O roteiro toma o cuidado de retratar seus personagens como figuras multidimensionais (ainda que indubitavelmente irresponsáveis), dotadas de dores, traumas e necessidade de escapismo e conexão. Assim, foge-se do clichê do(a) jovem descartável, tão comum no terror, cuja disponibilidade sexual habitualmente determina o momento de seu fim (ou possibilidade de sobrevivência). Sophie Wild capta perfeitamente a vulnerabilidade e a determinação de Mia, de modo a proporcionar uma performance carregada pela emoção advinda da possibilidade de conexão com sua falecida mãe. A novata Alexandra Jensen, no papel da triste Jade, serve de bússola moral para o grupo. Os mais atentos talvez reconheçam a veterana Miranda Otto (a Éowyn, de O Senhor dos Anéis), em mais uma performance contumaz.

A cinematografia e design de produção merecem aplausos, pois criam uma atmosfera intensa, que remete ao pesadelo sem apelar para a estilização excessiva. Enquadramentos precisos e uso criativo da iluminação, aliados à maquiagem impecável, adicionam uma sensação de tensão palpável, aumentando o suspense e aprofundando a imersão na narrativa. Esta, por sua vez, mesmo não inovando do ponto de vista temático, agrada pelo peso dramático que confere à decadência física, mental e espiritual de sua protagonista.

Fale Comigo é uma estreia cinematográfica triunfal, realizada por uma dupla que sempre foi promissora em todas mídias nas quais já atuou. Enquanto o anúncio de uma sequência entusiasma os fãs, é importante notar que o projeto não sacrifica sua estrutura em prol de novos capítulos, finalizado numa nota pungente. Desse modo, saímos da sala de projeção compelidos a refletir sobre as pontes entre o mundo físico e o oculto.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z e Diamond Films.

terça-feira, 25 de julho de 2023

Crítica: Mansão Mal-Assombrada (2023)

Dirigido por: Justin Simien. Roteiro de: Katie Dippold. Fotografia de: Jeffrey Waldron. Estrelando: LaKeith Stanfield, Tiffany Haddish, Owen Wilson, Danny DeVito, Rosario Dawson, Dan Levy, Jamie Lee Curtis e Jared Leto.

Provavelmente lançada num momento não muito favorável, a nova adaptação inspirada no brinquedo clássico da Disneylândia (posteriormente levado também ao Magic Kingdom e filiais internacionais) evita os erros que levaram o filme estrelado por Eddie Murphy a amargar 14% de aprovação no Rotten Tomatoes. O projeto de 2003 não era assustador e muito menos engraçado, no entanto conseguiu algum sucesso comercial.

Haunted Mansion (desta vez, sem o artigo) acompanha Ben (Stanfield), um guia turístico especializado em atrações paranormais de New Orleans. Cético a respeito do próprio trabalho, o rapaz é procurado por uma mãe e seu filho para combater espíritos que assombram a mansão no qual estão vivendo (quem diria?). A esta equipe, acabam se juntando um padre (Wilson), uma vidente (Haddish, sensacional como sempre) e um professor universitário (DeVito, inspiradíssimo).

A coesão e química do elenco são perfeitas, destoando-se apenas Jared Leto que, prejudicado por efeitos visuais discutíveis e voz alterada digitalmente, poderia facilmente ter sido criado por inteligência artificial. Também destaco a fluidez com que os personagens mantém diálogos casuais sobre temas sensíveis, sem ignorar o peso destes, mas considerando o fato de que o além-morte também pode ser celebratório e não precisa ser tabu. Alguns momentos envolvendo o mundo dos mortos remetem ao ótimo A Noiva Cadáver.

É divertido constatar que, embora clichê em sua construção visual, o projeto consiga algum êxito ao empregar de maneira orgânica muitos tropes marcantes do brinquedo, como a sala de jantar, o imenso corredor "rotativo" e a marcante Madame Leota, desta vez interpretada por ninguém menos que Jamie Lee Curtis. A vibe levemente desconcertante (desta vez a Disney optou, acertadamente, pela classificação PG-13 ao invés da PG do filme de 2003) combina bem com o entretenimento descontraído que a atração do parque proporciona. Há instantes que me lembraram do Casper de 1995, com Cristina Ricci, clássico da Sessão da Tarde.

Sempre em busca de lançar uma nova franquia que possa alçar voos como os de Harry Potter ou mesmo Piratas do Caribe, a Disney faz aqui uma tímida, ingênua tentativa. Tentou-se Crônicas de Nárnia, Príncipe da Pérsia e (oh, céus) John Carter... A má notícia é que provavelmente não foi desta vez, a boa é que há talento aqui. 

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z e The Walt Disney Company.

terça-feira, 27 de junho de 2023

Crítica: Indiana Jones e a Relíquia do Destino (2023)

Dirigido por: James Mangold. Roteiro de: Jez Butterworth, John-Henry Butterworth, David Koepp e James Mangold. Fotografia de: Phedon Papamichael. Estrelando: Harrison Ford, Phoebe Waller-Bridge, Antonio Banderas, John Rhys-Davies, Toby Jones, Boyd Holbrook, Ethann Isidore e Mads Mikkelsen.

Exatos quinze anos após o polêmico O Reino da Caveira de Cristal, temos o quinto e, teoricamente, último projeto da série Indiana Jones que, iniciada há 42 anos, homenageava os romances pulp e os serials de décadas anteriores. Ao contrário de muitos, eu aprecio o longa de 2008, porém aprecio mais ainda o fato deste novo capítulo ter se livrado de todos os elementos questionáveis do quarto filme. Personagem de Shia LaBeuf? Morto. A Marion de Karen Allen? Desta vez é uma simples ponta. E assim por diante.

Primeiro Indiana não dirigido por Spielberg, Relíquia do Destino apresenta-nos um roteiro que se passa em 1969 e acompanha um Indy prestes a se aposentar. O arqueólogo, no entanto, vê-se obrigado a retornar à ativa para impedir que um poderoso artefato caia nas mãos de um cientista alemão (Mikkelsen) que, mesmo após o fim da Segunda Guerra, ainda se apega a ideais nazistas. Desta vez acompanhado por sua afilhada Helena (Waller-Bridge, excepcional), o professor luta para se adaptar a um mundo em constante transformação, ao passo que lida também com seu próprio envelhecimento.

Competente em seus aspectos técnicos, o filme faz jus ao orçamento vultoso e consegue disfarçar bem o uso do CGI e, com exceção e um ou dois momentos, o uso do chroma key também é bem discreto. O rejuvenescimento digital aplicado na sequência inicial é de tirar o fôlego, provavelmente o melhor já feito até hoje. A fotografia pode não ser tão inventiva quanto já fora, mas certa sequência de perseguição em meio a um desfile está entre as melhores de toda a franquia.

Ciente de interpretar um personagem quase mítico, Harrison Ford encarna-o esta última vez com leveza e propósito. Há algo de reconfortante em saber que, no meio de uma indústria onde quase nada parece ter fim, esta franquia, ao menos por enquanto, tem um.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z, The Walt Disney Company e Paramount Pictures.

terça-feira, 13 de junho de 2023

Crítica: The Flash (2023)

Dirigido por: Andy Muschietti. Roteiro de: Christina Hodson. Fotografia de: Henry Braham. Estrelando: Ezra Miller, Sasha Calle, Michael Shannon, Ron Livingston, Maribel Verdú, Michael Keaton e George Clooney.

O conceito de multiverso tem sido cada vez mais explorado pelas franquias de super-heróis. Apesar de ser algo empolgante do ponto de vista teórico, na prática traz complicações por depender de um conhecimento que envolve não apenas o material-fonte, mas inúmeras obras derivadas e mesmo séries de tevê. Já passou a época do "você não entendendeu o filme porque não leu o livro". É bem mais complexo agora.

Alçado ao estrelato após dirigir o fraco Mama (2013) e a bilogia It (2017-2019), o argentino Andy Muschietti captura bem a essência cartunesca do herói, ao passo que o roteiro de Christina Hodson não perde tempo com exposições desnecessárias. Aqui, vemos Barry Allen (Miller) descobrir que possui a capacidade de interferir em eventos passados e, a partir daí, tenta evitar a perda da mãe (Verdú). Tal empreitada traz todo tipo de consequencia indesejada. Quem poderia imaginar...

Ezra Miller, sempre polêmico, compreende bem a essência do personagem. Barry Allen é um underachiever, ele não faz nada direito. E isso torna sua química com o "Barry alternativo" ainda mais interessante. O que nos traz ao incrível avanço tecnológico na construção dos planos nos quais os dois personagens interagem. Efeitos especiais e visuais evoluíram bastante desde que Lindsay Lohan interpretou duas gêmeas há 25 anos. Também destaco a excelente participação de Michael Keaton, que desperta no público o mesmo fascínio que Barry sente ao encontrá-lo. No terceiro ato, há uma ponta inspiradíssima.

Mesmo havendo, sim, competência técnica no projeto, é impossível não notar a irregularidade do CGI usado em muitas sequências. Como tem sido hábito há alguns anos, grandes estúdios terceirizam a animação e renderização de elementos para empresas menores espalhadas pelo mundo, aproveitando-se de incentivos fiscais e coisas do gênero. Talvez ajude a explicar a imensa irregularidade dos efeitos visuais vistos aqui. Compósitos ruins, chroma keys escancaradas, elementos sem motion blur e (socorro) texturas dignas de um jogo de PS3.

Lançado uma semana após a estupenda continuação de Aranhaversoo projeto forma uma rima interessante com seu concorrente, mesmo tendo uma estrutura fechada em três atos. Ambos terminam com um cliffhanger admirável. Resta saber se haverá sucesso comercial que justifique novos investimentos. Na concorrência, a sequência já está garantida.

Por Bernardo Argollo

Obs.: há uma cena pós-créditos.

Agradecimentos: Espaço Z e Warner Bros. Discovery.

terça-feira, 4 de abril de 2023

Crítica: Super Mario Bros. (2023)

Dirigido por: Aaron Horvath e Michael Jelenic. Roteiro de: Matthew Fogel. Estrelando: Chris Pratt, Anya Taylor-Joy, Charlie Day, Jack Black, Keegan-Michael Key e Seth Rogen.

Transpor Super Mario para a tela grande não é uma tarefa simples. Em 1993, a franquia de jogos da Nintendo foi adaptada num longa que, de tão ruim, deixou a empresa japonesa com um pé atrás na hora de licenciar seus produtos para adaptações cinematográficas. Eis que, 30 anos depois, chega este novo projeto feito pela Illumination Studio, que produziu Meu Malvado Favorito (2010) e suas continuações caça-níqueis.

O roteiro acompanha a história de Mario e Luigi, dois encanadores de ascendência italiana que vivem no Brooklyn, e deixam seus empregos para investir no próprio negócio. Desprezados pela própria família, que duvida de seus potenciais, os irmãos bigodudos encontram um cano verde mágico que os leva para o familiar universo de fantasia dos games.

O enredo, como já era de se esperar, é superficial e frágil, já que trata-se de um game que nunca teve um enredo bem definido. Qual a motivação do vilão dublado por Jack Black? De onde veio a Princesa Peach? São perguntas que ficam sem resposta, mas que, a bem da verdade, provavelmente não serão feitas pelos espectadores mais jovens. Há, no entanto, referências e easter eggs reconhecíveis mesmo para quem, como eu, nunca jogou um game da série.

Tecnicamente irrepreensível, o longa traz à tona o universo visualmente rico dos games, e aposta na nostalgia ao empregar os acordes já conhecidos da triha sonora. Há também músicas incidentais que, embora óbvias, valem pela nostalgia. As duas cenas pós-créditos, por sua vez, apontam para o futuro da franquia. Teremos um Mario Extended Universe?

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos: Espaço Z e Universal Pictures.

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