terça-feira, 4 de agosto de 2015

Crítica: Quarteto Fantástico (2015)













Dirigido por: Josh Trank. Roteiro de: Simon Kinberg, Jeremy Slater, Josh Trank. Estrelando: Miles Teller, Michael B. Jordan, Kate Mara, Jamie Bell, Toby Kebbell.

Depois dos dois longas medianos lançados em 2005 e 2007, eis que, para variar, é realizado mais um reboot de super-heróis. Melhor do que seus antecessores – o que não quer dizer muita coisa – esse novo Quarteto Fantástico investe numa atmosfera ligeiramente mais sombria e dramática.

Típico “filme de origem”, o roteiro acompanha o garoto Reed Richards (Teller), que tenta criar um teletransportador em sua garagem junto com seu amigo Ben Grimm (Bell). Anos depois, em uma feira de ciências, o Dr. Franklin Storm (Cathey) o convida para trabalhar no Instituto Baxter, com o objetivo de desenvolver uma máquina para viagem entre dimensões. Juntando-se aos filhos de Storm, Sue (Mara) e Johnny (Jordan), os rapazes se teletransportam para um universo alternativo, tendo seus corpos modificados e ganhando incríveis poderes. À medida que se adaptam a essa nova realidade, eles precisam aprender a controlar suas novas habilidades e se unir para combater o vilão Victor von Doom (Kebbell).

Contando com um primeiro ato promissor, que constrói cuidadosamente a amizade entre Ben e Reed, o longa investe numa trilha sonora discreta e numa paleta de cores sóbria. Tal esforço para ser levado a sério é, infelizmente, prontamente anulado em momentos como o que mostra um pavoroso macaco em CGI (qual seria o problema em utilizar um macaco real?). Dessa forma, qualquer senso de realidade é anulado, externando a artificialidade de tudo aquilo. Aqui e ali até vemos alguns efeitos visuais competentes, mas de uma forma geral o longa desaponta nesse quesito. Vale destacar o planeta para o qual os personagens viajam, que além de ter sido concebido da maneira mais óbvia possível, acaba se parecendo muito com o que é na verdade: um cenário virtual colocado sobre o green screen.

Por outro lado, o roteiro é eficiente ao evitar mostrar coisas que podemos facilmente deduzir. Dessa forma, os personagens, ainda que arquetípicos, conseguem ser eficientes sem tornar-se emocionalmente inócuos, o que só facilita a identificação do público. Tudo isso foi possível graças à boa (mas não ótima) performance dos jovens atores.

A produção acerta por explorar dramaticamente O Coisa, personagem mais complexo do Quarteto. É uma pena que o ótimo Jamie Bell apareça pouco em sua forma humana, já que o design de sua forma pétrea pouco permita em termos de espectro de atuação. Numa comparação inevitável, nas versões anteriores o personagem era bem mais expressivo, embora não tão bem explorado. Aqui, suas expressões faciais ficam muito limitadas após a transformação, o que nos leva a questionar se mesmo o motion capture chegou a ser feito.

O vilão é, como de costume na maioria dos filmes baseados em quadrinhos, caricato e unidimensional. Afinal, não dá para esperar muita complexidade de alguém que se chama Dr. Doom (ah, esses nomes de quadrinhos...). As falas e atitudes dele são o cúmulo do clichê, logo, não tememos pelo destino dos heróis. O grande problema do projeto reside, todavia, no clímax. Depois de dois atos de desenvolvimento de personagens e da dinâmica entre eles, a resolução mostra-se apressada, súbita e, portanto, decepcionante. É óbvio que mesmo em meio a tanta pressa o filme encontra tempo de preparar o terreno para a inevitável e obrigatória continuação.

O filme estreia no dia 6 de agosto no circuito comercial.

Por Bernardo Argollo

Agradecimentos:
20th Century Fox
Espaço Z Salvador

sábado, 6 de dezembro de 2014

Crítica: Spring Breakers (2012)

















Dirigido por: Harmony Korine. Roteiro de: Harmony Korine. Estrelando: Vanessa Hudgens, Selena Gomez, Ashley Benson, James Franco.

Mais do que um projeto ousado feito sob medida para mostrar que princesas Disney já não são tão princesas assim, este Spring Breakers é uma agradável surpresa, trazendo uma estética que, se não original, serve muito bem aos propósitos da narrativa.

Iniciado com longos planos em câmera lenta que, em meio a uma trilha pulsante, e com uma fotografia devidamente saturada, situam o espectador no local onde se desenrolará toda a libertinagem que constitui a famosa semana onde vale tudo para os estudantes americanos. O roteiro acompanha a jornada de quatro garotas, vividas por Selena Gomez, Vanessa Hudgens, Rachel Korine e Ashley Benson. Por não possuírem recursos financeiros para ir ao Spring Break, as meninas resolvem assaltar uma lanchonete para angariar fundos, num criativo plano-sequência. Tendo seu projeto bem sucedido, elas embarcam para uma jornada de sexo, drogas e criminalidade.

A incrível fotografia de Benoît Debie nunca é gratuita, investindo sempre em pistas visuais sobre aquilo que acontecerá a seguir. Na sala de aula vista no início da projeção, apropriadamente mergulhada em sombras, vemos os tons neon/cítricos que remetem ao Spring Break. Acertando imensamente ao compor a faculdade como um ambiente onde o cinza drenou todas as cores (algo que se repetirá na prisão, após a festa), Debie ressalta ainda mais a fascinação que a comemoração desregrada exerce nas jovens, que os realizadores infantilizam através de detalhes sutis como as bolsas de pelúcia e falas ingênuas (“é a nossa chance de ver algo diferente”).

O longa ainda encontra tempo para criar metáforas inesperadas, como na cena em que as garotas se banham em uma fonte, numa tentativa patética de purificação para entrar de corpo e alma na comemoração, ao mesmo tempo em que fortes luzes vermelhas denunciam o perigo e a culpa inerente às suas atividades, num momento que flerta divertidamente com a lógica visual de Os Bons Companheiros. Tomando o cuidado de não julgar as atitudes de suas personagens, o diretor Harmony Korine conduz a narrativa com segurança, usando imagens semelhantes a gravações de arquivo no segundo ato, contrapondo-se inteligentemente ao ar intimista do primeiro, que com a câmera sempre próxima ao rosto das moças, ilustra organicamente o quanto o entorno as sufoca.

O desenho de som é simplesmente impecável, sem chamar muita atenção para si mesmo, ao passo que contribui muito para estabelecer ideias sem recorrer a diálogos. Destaque para o som de tiro que aparece desde o início, compondo uma criativa rima sonora e alertando o espectador que, inevitavelmente, algo não vai dar certo. E não deu.

Donas de uma ingenuidade irritante e diretamente proporcional à sua disposição em transgredir, as garotas acabam detidas e são “resgatadas” pelo mafioso Alien, numa performance magistral de James Franco. A partir de então, os realizadores são hábeis ao retratar o desconforto crescente de Faith (Gomez) a partir da mise-en-scène e de sua posição progressivamente à esquerda e abaixo do centro nos quadros.

Não caindo no erro comum de justificar ou relativizar as atividades ilegais de Alien, o roteiro e a atuação de Franco o transformam em nada menos que um personagem perigoso, assustador e absolutamente frágil. Dono de uma sensibilidade que ninguém esperaria de uma figura como ele, o gangster/rapper/traficante faz referência ao icônico Scarface com a mesma facilidade com que, numa cena belíssima (e sem medo de ser brega), canta a música Everytime, de Britney Spears. Esse momento representa o amadurecimento no mundo do crime por parte de Brit (Benson), Candy (Hudgens) e Cotty (Korine), rimando perfeitamente com a cena em que, num momento de descontração e infantilidade absolutas, outra música da mesma artista é cantada, a boba Baby One More Time.

Não que o longa não tenha sua parcela de problema, é claro. Algumas situações são difíceis de aceitar, soando absurdamente inverossímeis, mesmo naquele universo totalmente deturpado. O roteiro jamais se preocupa em esclarecer, por exemplo, o real motivo de Alien ter pagado a fiança das garotas, sendo que nunca as tinha visto antes (e havia inúmeras outras na mesma situação). Mas tudo isso empalidece, por exemplo, diante da mansão banhada por luzes roxas (morte) vista no terceiro ato. Ah, Spring Breakers... Você fez a lição de casa.


Por Bernardo Argollo

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Crítica: Incêndios (2010)













Dirigido por: Denis Villeneuve. Produzido por: Luc Déry, Kim McCraw. Roteiro de: Denis Villeneuve, Valérie Beaugrand-Champagne Estrelando: Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin, Maxim Gaudette, Rémy Girard.

Em certo momento de Incêndios, um experiente professor dá as boas-vindas à matemática pura dizendo que esta é “o reino da solidão”. E é dessa maneira que Denis Villeneuve (do perturbador Polytechnique) vê o Oriente Médio, uma terra de brutalidade, fanatismo e irracionalidade. Mesmo assim, o que se vê na tela é uma história inteligente, tocante e fundamentalmente humana, já que o diretor jamais toma partido e faz questão de deixar claros os prejuízos para todas as partes.

Baseado na peça homônima de Wadji Mouawad, o belíssimo (e coeso) roteiro acompanha os irmãos Jeanne e Simon Marwan, gêmeos que, após a morte da mãe, descobrem que possuem um irmão e que seu pai pode estar vivo. Jeanne, então, resolve mergulhar sem reservas no passado da genitora, partindo numa reveladora viagem com destino a um país não revelado (mas cujos acontecimentos são claramente inspirados no Líbano das últimas quatro décadas) no Oriente Médio. Ao passo que Jeanne se entrega totalmente em sua jornada, Simon se mostra relutante em desvendar o passado e cumprir com as disposições do testamento.


Construindo cuidadosamente sua história, os realizadores optam por erigir um universo carregado em melancolia, e o próprio design de produção da obra evidencia essa natureza soturna. Desde à sala de aula coberta por tons de branco vista no primeiro ato, totalmente drenada de cores, até os figurinos dos gêmeos, que quase sempre estão de cinza, a lógica visual do longa acerta por servir à trama, não constituindo um fim em si mesma. A direção de arte consegue ser evocativa ao alternar grandes paisagens bucólicas e habitações humildes, que aparecem manchadas por cinzas de um incêndio.


Desenrolando-se em duas linhas temporais, a narrativa jamais deixa o espectador confuso ou cai no erro de se tornar excessivamente episódica. O recurso é clichê, mas funciona. Usando o passado sempre que precisa explicar o presente, Villeneuve impregna sua obra de uma aura mítica e etérea típica das tragédias. As duas buscas paralelas, de Nawal por seu primeiro filho dado para adoção e a de Jeanne por seu pai e seu irmão, realçam a relação passado/presente.

Uma das muitas nuances da produção é a busca identitária por parte de filhos de imigrantes, que nasceram em outros países, que não falam a língua de seus antepassados e que não se identificam com sua cultura. Então, ao se perguntarem qual é sua verdadeira identidade, emerge o simbolismo dos incêndios, que só deixam cinzas, restos de algo que já se foi.

Bastante seguros sobre a história que pretendem contar, os produtores conseguem extrair o melhor do elenco. Lubna Azabal, intérprete de Nawal, consegue exprimir seus desesperos sem recorrer à diálogos. A sequência em que sua personagem é atacada no ônibus é extremamente comovente, e Azabal ilustra toda a complexidade do momento com apenas uma mudança de olhar. Só grandes atores são capazes de fazê-lo. Enquanto isso, Mélissa Désormeaux-Poulin se sente extremamente confortável como sua Jeanne, e merecia todos os prêmios de atuação só pela forma como reage ao questionamento feito pelo irmão no terceiro ato.

A presença de títulos que dividem o filme é completamente inútil e descartável. Além de não terem função alguma na narrativa (pois os espectadores podem se situar muito bem sem sua ajuda), os letreiros vermelhos quebram a bela continuidade visual da fotografia de André Turpin. Pior que isso, só os diálogos excessivamente fabricados do tabelião interpretado pelo ótimo Rémy Girard, personagem que é utilizado pelo roteiro apenas como recurso expositivo.

Incêndios ressignifica o mito de Édipo, da tragédia grega de Sófocles, ao revelar a identidade do pai e do irmão dos gêmeos. Assim, Villeneuve faz com que a trajetória de Nawal se confunda com o próprio momento histórico turbulento que vivenciou. Entre a viver em uma mentira e conviver com a verdade, ela opta pela paz contida nesta última. Criando uma narrativa universal que se encaixaria em qualquer região convulsionada do planeta, o cineasta consegue se estabelecer como um dos maiores achados do cinema canadense dos últimos anos.


Por Bernardo Argollo

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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Crítica: Jogos Vorazes - Em Chamas (2013)













Dirigido por: Francis Lawrence. Produzido por: Nina Jacobson, Jon Kilik. Roteiro de: Michael Arndt, Simon Beaufoy. Estrelando: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Elizabeth Banks, Phillip Seymour Hoffman, Sam Claflin.

Para a provável alegria de milhões de fãs histéricos, o segundo capítulo da franquia Jogos Vorazes parece mais preocupado com questões práticas do que em discutir as questões morais de se disputar um jogo que não passa de um massacre. E isso é bom.

Com a mesmíssima dinâmica do filme anterior, o roteiro acompanha as consequências com as quais Katniss Everdeen tem de lidar, depois do que fora forçada a fazer no primeiro longa. Acertando justamente por não compactuar com o pior defeito dos livros – serem narrados em primeira pessoa – o longa acompanha os vencedores da 74ª edição dos Jogos Vorazes durante uma turnê pelos 12 distritos controlados pela totalitária e luxuriante capital. Tornada símbolo de esperança para os desolados habitantes de Panem, Katniss descobre que será obrigada a participar do “Massacre Quaternário” onde ela terá, juntamente com outros vencedores do reality show, que lutar por sua sobrevivência e, é claro, sofrer ainda mais.

Eficiente em seus aspectos técnicos, o longa agrada (mas não impressiona) em sua direção de arte e efeitos especiais. Claramente óbvio em suas simbologias e metáforas, os realizadores não se preocupam com sutileza ao externar para seu público-alvo as entrelinhas da trama e de sua construção visual. Assim, não é necessário pensar muito ao ouvir os nomes de alguns personagens (Plutarch, que foi biógrafo de figuras como Marco Antônio e Cleópatra, é meu favorito), ao passo que o design de produção da Capital que, indubitavelmente moderna, não se intimida ao externar todo tipo de edifício acinzentado e anguloso, muito parecida, digamos, com uma certa capital de um majestoso império da antiguidade (fui sutil o suficiente?). O nome do país eu não vou nem comentar. Aliás, em que universo diegético esse Estado está situado? Como é sua relação com outros países e outros povos? A comunidade internacional (se é que há alguma) aceita e corrobora tudo que acontece? O resto do mundo também está dividido em distritos e controlado por outros presidentes ditatoriais? São algumas das muitas perguntas sem resposta presentes tanto no roteiro quanto no livro atarantado de Suzane Collins.

Sem subestimar em momento algum o impacto dos acontecimentos do primeiro filme, Em Chamas admiravelmente faz questão de mostrar que o fato de ter vencido os Jogos não alterou a dinâmica da vida de sua protagonista. Vivendo no mesmo mundo cinzento e melancólico, a moça, agora encarada como ameaça, mostra-se inteligente o suficiente para não se posicionar politicamente, sabendo que isto resultará em desastre. Perturbada pelo trauma dos Jogos, o longa agora faz com que o alcoolismo de Haymitch pareça bastante plausível, já que o universo cruel e opressivo de Panem atinge a todos, mesmo os vencedores.

Assim como no primeiro filme, este também é repleto de boas atuações e personagens interessantes. A excepcional Jennifer Lawrence parece ter entrado no piloto automático como Katniss, sempre interpretada no mesmo tom de tragédia e sofrimento. O sempre ótimo Phillip Seymour Hoffman é extremamente eficaz com seu Plutarch Heavensbee (dá pra imaginar outro ator interpretando o personagem mais dual da trama?), assustadoramente cheio de nuances para um coadjuvante de um blockbuster. Não é à toa que ele é amplamente considerado um dos melhores de Hollywood. O único destaque negativo reside na atuação de Josh Hutcherson. Inexpressivo como sempre, o ator recita suas falas sempre no mesmo tom monocórdico e parece acreditar que isso é suficiente para o crescimento de seu personagem. Não é.

Lançado em meio a um morno debate sobre suas denotações e conotações políticas – qual político atual representaria o presidente Snow? – Em Chamas possui uma narrativa fraca demais para justificar tal discussão. Os realizadores parecem mais preocupados com táticas de jogo e com os desvarios amorosos da protagonista. Ainda que o recurso aventado por Plutarch para prejudicar a imagem de Katniss seja interessante, bem como o fato desta não viver em função de seu triângulo amoroso (que jamais desvia muita atenção), todos os subtextos são óbvios demais. Mesmo assim vão passar muito acima da maior parte do público. Sim, há um viés politizado, há abuso de poder, há “pão e circo”, há sacrifícios pessoais, mas a incapacidade de raciocínio crítico de uma enorme porção da geração atual anula qualquer esforço da produção.

Incrivelmente eficiente em seus propósitos, mas longe de ser uma obra perfeita, Em Chamas é um pequeno milagre no esquema de produção de filmes teen de Hollywood. Francis Lawrence e o roteirista Michael Arndt (de Toy Story 3 e do futuro Star Wars VII) conduzem a narrativa com segurança, fazendo com que todos os recursos em suas mãos conduzam a um entretenimento para adolescentes que tem um mínimo significado. O que, por si só, já é um grande feito.

Por Bernardo Argollo

sábado, 16 de novembro de 2013

Crítica: Blue Jasmine (2013)













Dirigido por: Woody Allen. Produzido por: Letty Aronson. Roteiro de: Woody Allen. Estrelando: Cate Blanchett, Alec Baldwin, Sally Hawkings, Bobby Cannavale.

Surpreendentemente expondo a si mesmo ao fazer um estudo psicológico de sua personagem, Woody Allen retorna aos Estados Unidos depois de visitar a Europa em seus três últimos filmes. Ao mesmo tempo severo e compassivo, o cineasta conseguiu criar um drama envolvente com uma das criaturas mais desprezíveis e comoventes de sua filmografia. Expondo a realidade tragicômica da ruína dos especuladores financeiros durante a crise de 2008, Allen não se intimida com suas convicções.

Cate Blanchett (que me tirou o fôlego com a poderosa Elizabeth e a inesquecível Galadriel, de O Senhor dos Anéis) apresenta uma de suas melhores performances na pele da arrogante Jasmine que, nascida Jeanette, se reinventou como a esposa de um investidor bilionário. Em meio a joias, mansões e eventos, a socialite de repente vê-se na miséria desde que seu marido, Hal (Baldwin), foi preso por fraude (qualquer semelhança com o verídico Bernie Madoff não é mera coincidência). Assim, ela é obrigada a se mudar para São Francisco e viver com sua alegre, mas simples, irmã Ginger, por quem nunca dispensou muito apreço quando levava uma vida luxuosa. O longa acompanha todos os seus desesperos enquanto Jasmine resiste, inutilmente, à nova existência.

Acostumada a ser servida por todos e sempre exigindo a bondade alheia, Jasmine exibe todos os seus pontos fracos sem gerar, por um momento que seja, a antipatia que normalmente sentiríamos por uma figura como ela. Sim, é fato que trata-se de uma criatura que representa o cúmulo da arrogância, do esnobismo e que beira a alienação, mas há algo de inegavelmente tocante na maneira com que ela relata a história de sua vida, visto que pequenos incidentes aparentemente triviais de seu passado contribuem imensamente para que compreendamos sua visão de mundo, o que é importante para o longa.
O elenco é simplesmente primoroso, com todos encaixando-se perfeitamente aos seus papéis. Sally Hawkins interpreta Ginger com a economia necessária (vale ressaltar que as duas irmãs foram adotadas), ao passo que Alec Baldwin sente-se muito confortável com seu Hal, que é o próprio arquétipo do executivo sedutor. Mas é Blanchett quem realmente merece todos os prêmios, abraçando sua personagem com fragilidade e desespero, simplesmente entregando a melhor performance feminina em um filme de Woody Allen desde Diane Keaton em Annie Hall (1977).
O longa expõe de cara os desajustes emocionais de sua protagonista. Começando pelo monólogo, que ela acredita ser uma conversa, o que quase me fez pensar nela, por um momento, como uma versão feminina do próprio Woody Allen. Mas não, a história é sobre ela, que não está à beira da devastação total, pois já passou disso e não vislumbra nada que se encaixe em suas pretensões. De que adianta hospedar-se com a irmã, se seu namorado e seus amigos são tão mal-educados e seu apartamento é tão feio? De que vale se sujeitar ao trabalho de secretária num escritório de um dentista, se este emprego está tão abaixo dela?
Claramente inspirado em Uma Rua Chamada Pecado, o roteiro é recheado de flashbacks que visam esclarecer as circunstâncias que levaram a protagonista à sua conjuntura. Mesmo assim, consegue manter-se coeso e bem estruturado, ainda que não sejam necessários tantos retornos temporais para que possamos deduzir o que ocorreu. A estrutura funciona e justifica-se apenas pela sua “revelação” no terceiro ato.

Vendo apenas o quer ver, Jasmine, quando rica, não enxergava as traições do marido e agora, pobre, insiste em só ver os aspectos negativos da vida humilde da irmã. Essa é a sua maior tragédia. Allen e seu diretor de fotografia ilustram essa atitude organicamente através das cores quentes de Nova York e da paleta ligeiramente dessaturada de São Francisco. Mas é impossível não ter a impressão de que Allen corrobora suas ideias, ele está com ela (senão ela não seria a protagonista, ora!). São Francisco é um horror perto de Nova York e não ser rico é mesmo um porre. Assim, quando Jasmine chora de alívio ao receber a ligação de um pretendente, é impossível não se identificar, ao passo que o enquadramento à distância (em respeito) funciona perfeitamente.

Ainda que tenha lá seus momentos de comédia involuntária, Blue Jasmine chega ao fim com um plano desolador. Enquadrada em primeiríssimo plano, vemos a dedicação com a qual Woody Allen trata a sua musa, mais uma mulher desajustada entre tantas. Deve-se lembrar, porém, que nenhuma foi exposta com tanta convicção.


Por Bernardo Argollo

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Crítica: Elysium (2013)













Dirigido por: Neill Blomkamp. Produzido por: Neill Blomkamp, Bill Block. Roteiro de: Neill Blomkamp. Estrelando: Matt Damon, Jodie Foster, Sharlto Copley, Alice Braga, Diego Luna.

Eu não só sou um grande admirador de Distrito 9, como o considero uma das melhores ficções científicas já feitas. Louvável em seu desejo de proporcionar algo mais que puro entretenimento, o longa de 2009 foi feliz ao criar metáforas poderosas para temas como o apartheid e a tensão racial na África do Sul. Agora, Blomkamp parece ter se perdido em seu desejo irrefreável de fazer uma crítica social, resultando numa história vazia, esquemática e maniqueísta.

O roteiro se passa no distópico (ou utópico) ano de 2154 que, por coincidência ou não, é o mesmo ano em que Avatar se ambienta. Iniciado com uma constrangedora exposição, Blomkamp logo apresenta seu protagonista, Max. Devido à superpopulação, que drenou os recursos naturais e prejudicou a qualidade do ar, o governo e a elite se mudaram para a belíssima estação espacial Elysium, ao passo que os 99% restantes permaneceram na Terra. Quando Max sofre um acidente na indústria onde trabalha e descobre que só tem cinco dias de vida, só lhe resta tentar pegar carona numa das naves que tentam adentrar na estação, pois lá se encontra a única cura disponível.

Apostando numa alegoria óbvia para o problema da imigração que atinge os países desenvolvidos, Blomkamp acaba por ser reducionista, pois seu roteiro esquemático e maniqueísta ignora as incontáveis nuances do problema. Além disso, seus personagens são rasos e unidimensionais demais para permitir leituras mais profundas. Fica até parecendo que o mundo é feito de 99% de pobres coitados, vítimas do 1% de ricos malvados nazistas. Sim, é fácil relacionar a trama do filme com a realidade mundial e brasileira. Mas é só isso, nada mais.

Eficiente em seus aspectos técnicos, o projeto apresenta efeitos visuais impecáveis, e o design de produção é útil ao contrapor o esplendor de Elysium à miséria do favelão que se tornou Los Angeles. Por mais que a fotografia poderia ter sido um pouquinho mais destoante nos dois ambientes, os cenários são muito bem estabelecidos. Mais o que sobra no visual, falta no roteiro: ousadia e originalidade. Foi isso que transformou Distrito 9 num ícone.

O ótimo elenco se esforça, mas boicotado pelo péssimo roteiro e pela direção de Blomkamp, oferece performances apenas medíocres. Matt Damon se esforça em transformar seu Max numa figura tridimensional, ao passo que Alice Braga (que até hoje nunca deu motivos reais para desapontamentos) confere peso dramático à sua Frey. Wagner Moura, sempre caricato, não chega a ser ruim com sua atuação cheia de energia. Já Jodie Foster pouco pode fazer como a secretária de defesa Jessica Delacourt.

Inseguros sobre a história que querem contar, os realizadores dão uma resolução superficial e convencional ao embate entre excluídos e privilegiados. O mais lamentável de tudo é constatar que Elysium ainda encontra tempo para, no meio da projeção, substituir sua luta social pelo clichê do “herói que precisa salvar o mundo”. Aí já é demais.

Por Bernardo Argollo

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Crítica: Holy Motors (2012)













Dirigido por: Leos Carax. Produzido por: Martine Marignac, Albert Prévost, Maurice Tinchant. Roteiro de: Leos Carax. Estrelando: Denis Lavant, Édith Scob, Eva Mendes.

Reverenciando o Cinema por aquilo que faz dele uma arte, a reprodução mecânica, o cineasta francês Leos Carax declara seu amor a Sétima Arte e ressente-se pelo seu estado atual. Intenso e intrincado, o projeto parece suscitar naqueles que o assistem o desejo incessante de decifrá-lo, ler suas entrelinhas e entender suas idéias mais sutis. Mais do que um exercício narrativo extremamente satisfatório, Holy Motors é um profundo estudo sobre o ato de se representar a vida na arte.

O roteiro acompanha um dia de trabalho do Sr. Oscar (Lavant) e as estranhas situações que vive. Circulando por Paris numa luxuosa limusine comandada pela belíssima Celine (Scob), Oscar assume diferentes identidades. A natureza de sua profissão nunca é explicada, portanto, o espectador fica a imaginar a lógica daquele universo (mais sobre isso daqui a pouco), intrigado por figuras como uma mendiga, um assassino, um pai ressentido, um ancião no leito de morte, entre outros.

Contando com um prólogo muito simbólico, que mostra o próprio Carax saindo da cama e caminhando em direção a uma das paredes de seu quarto, forrada com um papel de parede que remete a uma floresta. Assim, seu dedo médio revela-se uma chave, e a porta que se abre dá em um cinema no qual todos os espectadores dormem, uma clara metáfora para o perfil do público atual, que se contenta com produções vazias. Dessa forma, fica claro que o foco do longa é justamente a experiência de mergulhar em um filme.


Lamentando a artificialidade do Cinema contemporâneo, o roteiro não se intimida ao trazer seu protagonista visitando uma verdadeira indústria de motion capture, que expõe o caráter industrial de muitos projetos. Repleto de elementos surrealistas e mensagens subliminares, Holy Motors comenta a profissão do ator, que salta de um personagem a outro enquanto reflete sobre sua própria existência, e Lavant ilustra isso com maestria ao criar um eficiente arco dramático para seu personagem, que vai ficando progressivamente cansado e frustrado.


Devolvendo o poder de mistério às imagens, que muito perderam sua capacidade de sugerir à medida que foram ficando ao alcance de todos, o projeto traz várias referência a clássicos do cinema francês. As referências aqui são como lembranças vagas, como no momento que traz, no desfecho da projeção, Édith Scob usando uma máscara que remete à Os Olhos Sem Rosto, filme que protagonizou. O longa ainda encontra tempo para lamentar a morte do celuloide e sua substituição gradativa pelo digital, e não é coincidência que a Kodak tenha pedido falência justamente em 2012.

Há, em Holy Motors, musical, ficção científica, tramas de assassinato... E se as lápides com inscrições de “visite meu website” já soam bastante distópicas, o que dizer da modelo cujas vestes se convertem numa burca? Outro bom momento é a aparição da cantora australiana Kylie Minogue. Se antes seu maior hit é utilizado como epíteto da imaturidade em uma certa cena, na sequência a vemos interpretando o maior clichê dos filmes musicais: uma canção emotiva em resposta a uma pergunta. A passagem é uma clara crítica às fórmulas prontas e tem um trágico desfecho.

Aberto a diversas interpretações e aplaudido de pé durante quinze minutos no Festival de Cannes em 2012, o projeto é também sobre a mis-en-scène, o ato de dispor elementos em cena e criar algo crível. Em certa altura, o protagonista, dono de uma expressão corporal irretocável e cujo próprio nome representa a aspiração máxima de todos que atuam no cinema, resume: só a “beleza do gesto” é suficiente. Assim, Holy Motors se revela descomplicado, como um país das maravilhas no qual podemos viver o que quisermos, filme após filme.


Por Bernardo Argollo

The frames used here belong to Blu-ray.com and Les Films du Losange.

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