sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Crítica: Cisne Negro (2010)













“I just want to be perfect.”
“Perfect? I'm not perfect. I'm nothing.”
“I can't? I'm the Swan Queen, you're the one who never left the choral!”

Título original: Black Swan. Dirigido por: Darren Aronofsky. Produzido por: Ari Handel, Scott Franklin, Mike Medavoy, Arnold Messer, Brian Oliver. Roteiro de: Mark Heyman, Andres Heinz, John McLaughlin. Montado por: Andrew Weisblum. Fotografia de: Matthey Libatique. Estrelando: Natalie Portman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Barbara Hershey, Winona Ryder.

Olhar-se no espelho e encarar o próprio semblante nem sempre é fácil. Nossos piores inimigos e nossos maiores aliados podem estar lá, revelando nosso “eu” enquanto nos contemplam com os mesmos olhos inquisidores que usamos para julgá-los. Assim, o cinema é um grande espelho, onde rimos e choramos por aqueles que sabemos não existir, mas cujas características muitas vezes encaixam-se perfeitamente à nossa realidade.


Em O Lago dos Cisnes, Odette é uma princesa condenada a viver como um cisne pelo feiticeiro Rothbart e apenas o amor verdadeiro pode encerrar a maldição. Após descobrir o interesse do príncipe Siegfried em casar com Odette, Rothbart transforma sua filha Odile em uma sósia da princesa, diferenciando-se desta somente por exibir vestes negras. Enganado, o príncipe se apaixona por Odile, fazendo com que Odette cometa suicídio e se liberte.

Ambientado no intrigante mundo do balé, Cisne Negro incorpora um tom realista, por vezes documental, ao retratar sem rodeios a parte menos glamourosa desse universo. Por trás de movimentos graciosos e bem executados, há o esforço físico e mental de artistas completamente dedicados à sua arte, que conhecem bem a alegria e a dor de serem o que são. É nesse contexto que Aronofsky apresenta a bailarina Nina (Portman), que sempre fora coadjuvante e ganha o papel principal numa adaptação visceral d’O Lago dos Cisnes (de Tchaikovsky), capitaneada pelo obsessivo Thomas (Cassel). Enquanto Nina é a perfeita encarnação de Odette, o Cisne Branco, com sua pureza atrelada a uma técnica meticulosa e irretocável, Lily (Kunis), uma bailarina recém-chegada à companhia, representa melhor do que ninguém Odile, o Cisne Negro. Lily possui a malícia e a sensualidade necessárias para o papel (e para seduzir o príncipe), sendo uma bailarina mais instintiva do que técnica, se deixando levar...


Assim como no ótimo O Lutador, Aronofsky rodou Cisne Negro em película de 16mm. Dessa maneira, vê-se na tela uma fotografia excessivamente granulada, que se torna perturbadora ao encaixar-se perfeitamente ao universo tortuoso, confuso, áspero e “sujo” da protagonista e seu inconsciente. Logo na primeira cena, nota-se o tom psicológico da narrativa, que apresenta sua personagem principal como uma bailarina de corpo e alma, obcecada pela perfeição. Nada disso seria possível sem a atuação indescritível da israelense Natalie Portman, que naturalmente venceu o Oscar de Melhor Atriz. Ela emagreceu dez quilos para o papel e chegou a quebrar uma costela durante os ensaios.

A personalidade infantilizada de Nina, representada pela voz sussurrante, pelo quarto cor-de-rosa coberto de pelúcias, típico de uma pessoa absolutamente reprimida e insegura. Como as duas personagens opostas d’O Lago dos Cisnes são sempre interpretadas pela mesma bailarina, ela é induzida a se aventurar por caminhos obscuros e a descobrir sua sexualidade, à medida que incorpora o Cisne Negro. E ao descobrir-se como mulher, acompanha-se a conseqüente destruição da doce e recalcada Nina, que se entrega à insanidade. Não discutirei a forte teoria existente entre nós críticos, de que ela seria vítima de abusos sexuais por parte de sua mãe, embora eu acredite que faça sentido.


Incapaz de suportar a pressão do mundo competitivo do balé e desgastada emocionalmente, Nina entra num processo de insanidade gradual, começando com coisas simples como reflexos nos espelhos e em outras superfícies. O espectador é levado a acreditar que ela está sendo perseguida por Lily, que supostamente deseja substituí-la, possuindo todas as características que faltam à rival, entre elas a capacidade de se deixar levar pela dança, sem se ater excessivamente à técnica, requisito fundamental a qualquer dançarina sedutora. Além de apresentar uma imponência que contrasta com a magreza e fragilidade de Nina, possui asas negras tatuadas às costas.



Entre as incríveis atuações, destaque para o francês Vincent Cassel na pele de Thomas Leroy e para Barbara Hershey na pele de Erica, a mãe da protagonista. Mas quem realmente salta aos olhos é Winona Ryder, que interpreta a bailarina decadente Beth (a quem o papel de Odette e Odile pertencera), alguém cuja perda da identidade é simbolizada pela destruição de sua própria face em virtude de sua decaída natural com o avanço implacável da idade.

O design de som acerta por combinar elementos diegéticos e narrativos na composição da tumultuada conjuntura interior de Nina. Os efeitos visuais também são incríveis, incorporando-se de forma fluida e orgânica ao processo. Dessa maneira, cumprem seu objetivo com perfeição, pois o espectador médio não é capaz de precisar o que é e o que não é artificial, de modo a se envolver ainda mais na história.


Natalie Portman deixa bem marcada a incompetência de sua personagem em personificar Odile, sendo reprimida, retraída e travada. Assim, o público se emociona ainda mais quando a vê dançando sensualmente e apaixonadamente no terceiro ato, quando até sua respiração lembra um ofegar quase que sexual.


A busca pela perfeição e suas consequências são temas recorrentes na filmografia de Aronofsky. Cisne Negro rivaliza em riqueza de ideias, portanto, com obras como Pi e Réquiem Para um Sonho. Os sacrifícios e as terríveis provações necessárias para ascender existencialmente sempre levam a uma conclusão emocionante e apoteótica. Mais do que uma obra que trata dos anseios mais íntimos e viscerais da psique humana, esta produção não se contenta com o lugar-comum e quer se superar a cada sequência. Atenção para a cena da boate, ela significa muito.

Explorando conceitos freudianos e situações intensas, esta película dificilmente será esquecida e é, certamente, um dos melhores filmes da década. Provavelmente nunca houve na história do cinema uma película que brincasse com espelhos de maneira tão inteligente e curiosa. E nessa brincadeira acompanha-se uma criatura inocente descobrir-se como um grande obstáculo à própria trajetória. E ao destruir quem está em seu caminho para alcançar libertação de uma existência vacilante, ela se torna capaz de seduzir o príncipe, a corte, a plateia e o mundo inteiro.


Por Bernardo Argollo

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Créditos dos frames: Site Blu-ray.com e Fox Searchlight.

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sábado, 8 de setembro de 2012

Crítica: Os Mercenários 2 (2012)


“I now pronounce you man and knife”.

Título original: The Expendables 2. Dirigido por: Simon West. Produzido por: Avy Lerner, Danny Lerner, Kevin King Templeton, Les Weldon. Roteiro de: Richard Wenk, Sylvester Stallone. Montado por: Todd Miller. Fotografia de: Shelly Johnson. Estrelando: Sylvester Stallone, Dolph Lundgren, Jason Statham, Jet Li, Randy Couture, Terry Crews, Liam Hemsworth, Scott Adkins, Nan Yu.

Os Mercenários 2, deveria, teoricamente, ser considerando um filme ruim. Porém, é fato que ele cumpre o que promete e o que se propõe a ser. Diálogos rasos, fotografia ilógica, efeitos visuais ruins e furos no roteiro não tiram o brilhantismo desta continuação de uma excelente homenagem aos icônicos filmes de ação dos anos 1980, sendo uma experiência incrível assisti-la. O filme simplesmente funciona, simplesmente chega ao espectador. O longa sabe explorar suas características, brinca com elas. Ver tantos heróis oitentistas reunidos para 103 minutos de pancadaria deve ser especialmente nostálgico para o público na casa dos quarenta anos, que acompanhou o auge daqueles que hoje brincam com a própria idade.

O roteiro inicia com uma eletrizante cena de ação, ambientada no Nepal, onde o grupo de mercenários resgata um bilionário chinês. A partir de então, o grupo é convocado para resgatar um artefato de um avião acidentado e lá encontram Villain (Van Damme), que provavelmente recebeu esse nome para que não percamos tempo pensando no que ele seja, dada a obviedade da narrativa. Villain rouba o objeto e mata o mais novo integrante do grupo, Billy “the Kid” (interpretado por Liam Hemswoth, irmão de Chris Hemsworth, o Thor).

Os diálogos, apesar de rasos e, algumas vezes, sofríveis, surpreendem por não apresentarem palavrões ou linguagem vulgar. Trata-se de uma exigência de Chuck Norris para participar do filme, cumprida à risca. A ausência de um elemento quase sempre presente nesse gênero não chega a chamar atenção, mas é notada pelo espectador experiente. Além disso, roteiro se diverte ao fazer os personagens dizerem as frases de efeito uns dos outros, o que é eficiente, pois cria humor e disfarça a fragilidade da construção dos diálogos.

A produção é visualmente confusa, exibindo mudanças na fotografia sem nenhum motivo racional ou emocionalmente detectável (a não ser quando o diretor aplica um soft focus afim de disfarçar as marcas do tempo no rosto de Stallone). O quadro é ora granulado, ora liso e ainda alterna momentos de penumbra com outros mais iluminados.

Em vez de desenvolver o personagem de Liam Hemsworth, os desastrados roteiristas optam por eliminá-lo na primeira oportunidade, sendo que ele praticamente já tinha um arco dramático. Sua morte, ainda por cima, dá origem a reflexões vazias e deslocadas (“Porque os que mais merecem viver, os que mais querem fazê-lo morrem – e os que não merecem viver, permanecem?”). Mas isso é pouco perto de ver o mesmo figurante sendo morto duas ou três vezes.

A direção de Simon West é muito melhor que a de Stallone no longa anterior, acertando por trazes ótimas sequências de ação. Seus planos são mais longos e seus movimentos de câmera mais eficazes, pois permitem que os acontecimentos sejam observados, ao contrário dos planos curtíssimos e dos cortes frenéticos de Stallone.

Por fim, o saldo é positivo e a película se estabelece como uma ótima fonte do mais puro entretenimento, prestando uma merecida homenagem a um período que não volta mais. O carisma dos atores e o clima compensam os defeitos, e são eles que fazem com que a película não seja esquecida. Se nem o próprio filme se leva a sério, quem sou eu para levá-lo?

Por Bernardo Argollo

sábado, 25 de agosto de 2012

Crítica: Laranja Mecânica (1971)


“It's funny how the colors of the real world only seem really real when you viddy them on the screen.”

Título original: A Clockwork Orange. Dirigido por: Stanley Kubrick. Produzido por: Stanley Kubrick. Roteiro de: Stanley Kubrick. Montado por: Bill Butler. Fotografia de: John Alcott. Estrelando: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Adrienne Corri, Mirian Karlin, Godfrey Quigley e Anthony Sharp.

Violento. Marcante. Perturbador. Ousado. Espirituoso. Todos esses adjetivos são pouco diante da complexidade e da qualidade desta obra de Stanley Kubrick, que possui uma das mais geniais filmografias da história do cinema. A princípio, deixo claro que venho por meio deste registrar minhas impressões e dissertar brevemente acerca deste clássico. Não tenho como objetivo inovar na interpretação de algo que já possui mais de quatro décadas de existência e já foi dissecado de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Não me sinto no direito de fazê-lo com um filme do qual não vivenciei o contexto de lançamento.

Laranja Mecânica contempla a visão de futuro de Kubrick, baseada no livro homônimo de Anthony Burgess, publicado em 1962. A trama acompanha a jornada de Alex, um jovem de um futuro indefinido que vive suas aventuras inconsequentes em uma Londres diferente da que conhecemos. Em meio a atos de violência, estupro e vandalismo, Alex e seus droogs divertem-se e suscitam reflexões. Ao ser condenado a 14 anos de prisão por seus crimes, o protagonista é submetido a um inovador tratamento que visa curá-lo de sua perfídia e subversão, trazendo à tona, destarte, indagações sobre os limites do controle do indivíduo pelo Estado e sobre o cerceamento do livre arbítrio.


Logo no plano inicial, um zoom típico de Kubrick vai abrindo o quadro e somos apresentados ao panorama do período retratado. Os objetos de decoração ali presentes chamam atenção por apresentarem figuras femininas reificadas, introduzindo a misoginia da sociedade abordada. A narração que se segue apresenta os personagens e o vocabulário próprio dos jovens do filme, o Nadsat (um inglês que incorpora elementos de russo). O chapéu-coco utilizados pelos rapazes é uma clara alusão aos políticos britânicos, encaixando-se perfeitamente à frieza de suas roupas brancas, que lembram um uniforme operário, ligeiramente acinzentadas.


Apesar de a violência estilizada contida na produção não impressionar tanto na contemporaneidade, o diretor é hábil ao criar imagens perturbadoras (para que o espectador não consiga se livrar delas) e mexer com temores profundos do ser humano. Isso fica evidente logo no primeiro ato, na sequência da invasão à casa do escritor. Nela, o público fica desconcertado, pois a idéia transmitida é a de que, naquele universo, as pessoas não estão seguras nem mesmo em suas próprias casas (leia-se: seus maiores refúgios). Dessa forma, a película torna-se mais desconcertante que os programas de TV e filmes atuais, muitos com violência gráfica bem mais explícita.


Ainda sobre a violência, convém ressaltar os excelentes e criativos recursos narrativos utilizados para apresentá-la. Ela é, como já dito, estilizada, portanto, mais sutil aos sentidos. Além disso, é mostrada sempre junto com uma empolgante música clássica. Somos convidados a participar dela, aproveitá-la, de modo que não nos sintamos atingidos ou afetados. Com essa combinação inusitada, Kubrick quer questionar, provocar. Vocês se acham civilizados? O que dizem de um rapaz agressivo que se sensibiliza com a 9ª sinfonia de Beethoven? Qual a relação entre a arte e o mal humano? A arte está tão avançada que não se volta mais ao mundo animal? Esse filme incita a violência? Kubrick gosta de explorar os mais distantes limites de tudo, de tudo que é primitivo e visceral. Censurar esse filme é censurar uma visão da vida humana.

O protagonista Alex, brilhantemente interpretado por Malcolm McDowell em cada uma de suas nuances e transições entre estas, é incrível. Único personagem a falar diretamente com a câmera, constrói uma narrativa intimista, confessional, que faz do espectador um cúmplice. A estratégia é útil, pois ao compartilhar de sua adrenalina, o público pode até achá-lo horrível, mas nunca detestável. Dessa forma, quando Alex é transformado em uma laranja mecânica, condenamos o Estado da mesma maneira que condenamos o rapaz por seus crimes no começo da projeção. Será ele uma figura heroica? Afinal, parece existir num cenário destituído de pessoas.

A produção tenta, direta e indiretamente, forçar a identificação do público jovem com seus personagens. Isso acontece nos três atos. Exempli gratia, Alex é claramente mais inteligente que seus pais (quem nunca se sentiu assim que atire a primeira pedra). Quem nunca se sentiu substituído? O ápice desse questionamento ocorre na ótima cena em que Alex descobre que seu quarto foi alugado, e sua cobra (símbolo do pecado na cultura ocidental) foi morta.


Confrontando, num mesmo plano, belas imagens arquitetônicas com estupro, o filme cria e mantém seus incômodos conflitos. Ora sexy, ora violenta, a produção está sempre evidenciando a sagacidade daqueles que a criaram. Kubrick é perfeccionista, quer sempre mais. O comum o entedia. Seus filmes são dinâmicos, funcionam.

Na sequência da prisão, alguns elementos saltam aos olhos. O primeiro á um tanto óbvio: a substituição de nomes por números, a massificação que leva à perda da individualidade e da identidade. A segunda é a presença constante do padre, que serve, naturalmente, de repositório da moralidade cristã. Dessa forma, vê-se a função que a religião sempre teve em toda História, a de doutrinar as pessoas, aliená-las, servir de muleta, fazer com que elas aceitem as coisas passivamente.


A principal discussão da narrativa, contudo, diz respeito à retirada do direito à formação da própria moral. É público e notório que, quando a lei falha grupos organizados assumem o poder. O Estado deve, então, combater a violência retirando do cidadão a capacidade de “pecar”? Cabe a cada um decidir sua posição. Não é função do crítico de cinema ir por este ou aquele viés. Destaco, todavia, o momento simbólico em que os outrora companheiros de Alex tornam-se policiais, ingressando para o “braço” do Estado responsável pela “proteção” e “controle” do sistema.


No final da proteção, acompanhamos o consequente uso de Alex como objeto político-partidário, resultado da polêmica causada pela sua “cura”. No encerramento, Kubrick deixa escapar um quê moralizante, mas mesmo assim, permite diversas interpretações, algo típico de sua filmografia. Passeando por diversos gêneros, diversos temas, provocações variadas e sempre querendo mais, Stanley Kubrick é, indubitavelmente, uma das maiores figuras da Sétima Arte. Conhecer e apreciar sua obra é fundamental para entender melhor o cinema, o mundo, e a si mesmo.


Por Bernardo Argollo

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Crédito dos frames: Site Blu-ray.com (www.blu-ray.com)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Crítica: Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)













“When Gotham is ashes, you have my permission to die.” 

Título original: The Dark Knight Rises. Dirigido por: Christopher Nolan. Produzido por: Emma Thomas, Christopher Nolan, Charles Roven. Roteiro de: Jonathan Nolan e Christopher Nolan. Montado por: Lee Smith. Fotografia de: Wally Pfister. Estrelando: Christian Bale, Michael Cane, Anne Hathaway, Tom Hardy, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt, Morgan Freeman.

Em um encerramento digno para uma saga madura e ambiciosa, Christopher Nolan ratifica-se como um dos grandes diretores da contemporaneidade. Sua abordagem é adulta, verossímil e emocionante, sendo infinitamente mais interessante que o tom caricato adotado por Tim Burton. A envolvente narrativa tem falhas óbvias, fruto do excesso de pontas soltas dos filmes anteriores e de subtramas para resolver. Tais deslizes, contudo, não tiram o brilhantismo da fita e do seu formindável diretor.

Antes de dissertar de fato, devo observar que foi um alívio assistir à projeção em 35 mm (já que, infelizmente, não existem salas IMAX no meu estado). Em meio às terríveis projeções digitais que se espalham (não tenho nada contra, mas é necessária uma resolução maior que 4K para substituir a película), é gratificante perceber que existe um diretor consciente de que a melhor experiência cinematográfica ainda é a película. Exceto para produções em 3D, quando muitas vezes questões financeiras inviabilizam a sincronização de dois projetores e soluções digitais fazem-se necessárias, substituir a película sem prejuízos ainda é algo complicado.

Já feitos os comentários técnicos, vamos à crítica propriamente dita. A trama tem início oito anos após os acontecimentos vistos no longa anterior, quando a morte de Harvey Dent (atribuída a Batman) induz à criação de uma lei que inibe a criminalidade em Gotham. É nesse panorama que Bruce Wayne está imerso, tendo que reassumir seu alter-ego depois que a presença de Bane e de seu exército subterrâneo é revelada. Diversas subtramas e personagens secundários estão presentes, como a mulher-gato Selina Kyle (Hathaway), o jovem policial Blake (Gordon-Levitt) e a milionária (e, mais tarde, vilã) Miranda Tate.

Numa eletrizante sequência de ação logo nos primeiros minutos, somos apresentados ao terrorista Bane, brilhantemente interpretado por Tom Hardy. O ator apresenta uma composição vocal e uma imponência física notáveis. A voz profunda e hipnotizante do personagem é eficaz e necessária, já que seu rosto está sempre coberto por uma máscara (cuja função é liberar analgésicos para que ele possa suportar as horríveis dores de seus ferimentos). Dono de um discurso populista, o vilão é realmente uma figura assustadora. É interessante salientar, todavia, que bastou um close e um olhar no terceiro ato para que esta construção se inverta e, por um momento que seja, sintamos compaixão.

Christian Bale mais uma vez está sensacional como Bruce Wayne, com as transformações físicas que ele realiza para se adequar aos personagens sempre merecendo aplausos, soando convincentes e competentes. Destaque para a voz enrouquecida adotada por ele quando encarna o homem-morcego, usada mesmo quando se comunica com aqueles que conhecem sua identidade secreta, numa atitude que beira a esquizofrenia. Anne Hathaway atua de forma sedutora e atraente como a ladra Selina, e não posso deixar de mencionar a qualidade técnica dos planos em que ela pilota a moto do Batman. A boa atuação de Marion Cotillard como Miranda Tate é deveras prejudicada pelas suas falas um tanto operísticas.

O diretor é hábil ao criar e manter a tensão, intensificada pela ótima trilha sonora de Hans Zimmer. A paleta de cores escurecida e verossímil torna a fotografia sombria, contribuindo para tornar o filme um dos mais adultos de seu gênero. Ainda assim, é decepcionante constatar que, mesmo com toda sua liberdade criativa, Nolan e sua trupe tiveram a preocupação puramente mercadológica de que o filme não recebesse um R nos Estados Unidos. Na cena em que a polícia confronta o exército de Bane no terceiro ato, fica clara a intenção de manter o PG-13.

Enquanto outro cineasta não pensaria duas vezes antes de usar CGI para compor muitas das cenas, Christopher Nolan opta por efeitos mecânicos muito mais naturais e convincentes, algo recorrente em sua filmografia. A sequência dos aviões, logo no início da projeção, não foi feita por computação gráfica em sua maior parte.

Algo comum em terceiros capítulos de trilogia, a grande quantidade de personagens e subtramas acabam levando a furos no roteiro. Como é possível que Bruce retorne rapidamente a Gotham, teoricamente sem um centavo no bolso? Essas e outras falhas chamam a atenção do espectador experiente.

O final não é ambíguo como o de A Origem (2010), mas não deixa de dar margem a variadas interpretações. Tal afirmação deve-se ao fato de Alfred não ter ido cumprimentar Selina e Bruce, e destes estarem com roupas completamente diferentes do que costumam usar. Mesmo assim, o ex-mordomo poderia estar apenas sendo discreto (já satisfeito com a visão que tivera) e as roupas poderiam apenas estar simbolizando o novo momento de vida dos personagens. Se Alfred imaginou ou não, cabe ao espectador usar seu referente para decidir. É certo, porém, que o final é muito conveniente para a Warner Brothers, mesmo sendo o último projeto da franquia dirigido por Nolan.

A película prova, entre outras coisas, que é possível realizar algo sério, inteligente e rico em idéias baseando-se em histórias em quadrinhos. Caso tal procedimento torne-se tendência, só quem ganha é o espectador, que poderá refletir sobre sua realidade e abandonar os filmes visualmente arrebatadores e vazios de conteúdo que permeiam o cinema contemporâneo.

Por Bernardo Argollo

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Crítica: A Bela e a Fera (1991)














“I want adventure in the great wide somewhere
I want it more than I can tell
And for once it might be grand
 To have someone understand
 I want so much more than they've got planned...”

Título Original: Beauty and the Beast. Dirigido por: Gary Trousdale e Kirk Wise. Produzido por: Don Hahn. Roteiro de: Linda Woolverton. Montado por: John Carnochan. Estrelando: Paige O’Hara, Richard White e Robby Benson.

Impossível escrever sobre animação nos anos 1990 sem mencionar as produções da chamada Disney Renaissance (ou, algumas vezes traduzida como Era de Ouro da Disney). O período, iniciado em 1989 com A Pequena Sereia e finalizado em 1999 com Tarzan, é considerado o apogeu técnico e cinematográfico da animação bidimensional. Nele, a Walt Disney Pictures se redimiu de fracassos como O Caldeirão Mágico (1986) e reacendeu o interesse do público e da crítica por seus filmes, com inesquecíveis sucessos de bilheteria. E é nesse contexto que surge A Bela e a Fera, levando a animação a um nível inimaginável, contando com incríveis inovações técnicas e com o mérito de ter sido o primeiro filme de animação da história a ser indicado para o Oscar de Melhor Filme.


A dupla de diretores acerta ao manter a história em seu local e tempo de origem, a França renascentista do século XVIII, tornando a narrativa fluida e natural. Imersa nessa época de grandes transformações políticas, sociais e culturais que se encontra a protagonista Bela, uma jovem com idéias modernas e progressistas convivendo com indivíduos de mentalidades atrasadas, relutantes em se adaptar às mudanças em curso. Basicamente, a trama gira em torno da prisão da moça em um castelo enfeitiçado, onde habita um príncipe transformado em Fera. Após trocar sua liberdade pela de seu pai, um excêntrico inventor, o roteiro retrata a consequente história de amor entre Bela e o príncipe disforme, que acredito ser resultado de uma convivência forçada, fato ratificado pela ausência de sinais de “amor à primeira vista”, superando um terrível clichê dos filmes infantis.

Com personagens humanos ora verossímeis, ora estilizados, as inovações da produção são evidentes. Trata-se da primeira animação a mesclar desenhos feitos à mão com cenários em CGI, técnica que anos mais tarde tornar-se-ia obrigatória em qualquer filme de orçamento razoável da categoria. Muito fala-se da estrutura narrativa, semelhante à de um musical da Broadway. Constitui um engano, contudo, classificá-la como novidade, pois tal montagem já se fez presente no filme de abertura supramencionado da Era de Ouro. Mas de qualquer forma, os números musicais saltam aos olhos por sempre possuírem função e acontecerem com naturalidade e qualidade, não estando deslocados ou soando apenas como um artifício para divertir a jovem plateia. Sem falar, é claro, nas letras fenomenais compostas pelo mestre Alan Menken, com o sentido original um tanto distorcido na razoável dublagem em português.


Assustadoramente bem desenvolvidos para uma película de apenas oitenta e quatro minutos de duração, os personagens e suas vicissitudes são um espetáculo à parte. Se os objetos antropomorfizados não impressionam tanto depois de 21 anos do lançamento do longa, a Fera chama a atenção pela sua expressividade marcante destrinchada na sua constituição física peculiar. A criatura é uma miscelânea de elementos de animais como urso, javali, touro e leão, combinados de forma fantástica pelos talentosos desenhistas.

A lógica visual que permeia a película é um tanto óbvia, com a oposição evidente entre a mocinha vestida de azul (única em seu vilarejo a exibir a cor) e o vilão de vermelho. Não considero tal maniqueísmo como ponto fraco, mas como recursos diegéticos aplicados de forma apropriada a uma narrativa de foco infantil. Destaque para a indumentária amarela da protagonista na clássica sequência da dança, hábil ao explicitar o que ela representa no universo turvo do “monstro”, um verdadeiro sol que se contrapõe à sua escuridão.

O design de produção da fita é genial, desde a fotografia evocativa da Ala Oeste até a representação dos conflitos internos da Fera por meio de uma decoração de inspiração barroca bem aplicada. Da iluminação que se intensifica até o momento em que movimentos de câmera ambiciosos revelam a transformação do castelo (passando do barroco para o neoclássico) e de seus habitantes no terceiro ato, tudo é concebido com apuro técnico e fluidez visual.


O observador mais atento perceberá discretos erros históricos, como no plano que mostra o castiçal Lumière com uma representação da torre Eiffel ao fundo. A torre foi construída em 1889, muitos anos após o período em que o filme se propõe a retratar. Vale destacar, entretanto, a divertida referência a Napoleão feita pelo pragmático Horloge.

Na tentativa de provocar reflexões nas crianças (educá-las?), a Disney cria alegorias e simbolismos, do óbvio ao mais sutil. Duas, particularmente, chamaram minha atenção. A primeira é a apoteótica apresentação da biblioteca, que enquanto reverencia a valorização crescente das ciências na época enfocada (lembrando que as teorias iluministas vigentes pregam o racionalismo), endeusa o conhecimento e o coloca como meio para o desenvolvimento individual e coletivo. A segunda, mais simbólica e implícita, se dá quando Bela lê um livro sentada próxima a uma fonte, cercada de ovelhas. Durante um brevíssimo momento, tem-se a sensação que ela é quase que uma pastora, exibindo os encantos de seu livro para a horda, guiando-a. Dessa forma, o filme mostra que, como dizia Clarice Lispector, a palavra é um domínio sobre o mundo. Se afastando das polêmicas e duplos sentidos complicados de outras obras, a produtora beira o sublime com suas construções.


A versão convertida para 3D, lançada em fevereiro deste ano a fim de repetir o sucesso do retorno de O Rei Leão às telas em 2011, é competente. A profundidade é bem marcada e os artistas optaram pela paralaxe positiva, de efeito muito mais interessante e sem a vulgaridade de atirar objetos na cara do espectador. A única ressalva é para a profundidade de campo, que ocasionalmente se apresenta reduzida, quando o oposto é pré-requisito para qualquer filme em 3D. A terceira dimensão, todavia, é desnecessária para que crianças e adultos possam desfrutar dessa obra, que 21 anos depois, ainda permanece brilhante.

Por Bernardo Argollo

Créditos dos frames: Site Blu-ray.com (www.blu-ray.com)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Crítica: Melancolia (2011)


"The earth is evil. We don't need to grieve for it."

Título original: Melancholia. Dirigido por: Lars von Trier. Produzido por: Meta Louise Foldager, Louise Vesth. Roteiro de: Lars Von Trier. Montado por: Molly Malene. Fotografia de: Manuel Alberto Claro. Estrelando: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Alexander Skarsgård e Kiefer Sutherland.

Ao incorporar elementos do movimento Dogma 95 sem se ater excessivamente às suas regras rígidas e um tanto esdrúxulas, o cineasta dinamarquês Lars von Trier nos presenteia com um dos melhores filmes da década. Melancolia é uma história tocante, profunda, humana e desconcertante.

Ambientada num exuberante castelo sueco (mas de localização não citada na narrativa atemporal), a trama começa inserida no casamento de Justine, uma publicitária bem-sucedida acometida pela depressão. Em contrapartida, sua irmã Claire é uma mulher segura, calma e aparentemente feliz. Quando é anunciado que o planeta Melancolia vai colidir com a Terra, acompanhamos a desconstrução dos mundos divergentes de Justine e Claire, da maneira mais humana e poética possível.


Na primeira parte, centrada em Justine, Kirsten Dunst oferece uma atuação incrível, retratando uma pessoa depressiva com extrema sensibilidade e cuidado. É chocante notar, em seu casamento, que em meio a incessantes sorrisos, ela parece ter sempre uma lágrima pronta para brotar. Isso fica bem marcado na cena em que Justine se defende dos conselhos de sua irmã (temerosa de uma recaída).




Cercado de metáforas e construções simbólicas, com destaque para as que permeiam o irretocável prólogo (que se desenvolve quase que como um sonho), o roteiro é hábil ao desenvolver plenamente seus personagens. Quando os problemas de Justine chegam ao ápice, pois até sua comida preferida perdeu o sabor e ela não consegue nem mesmo banhar-se, o primeiro ato termina e o segundo tem início. Na transição entre os dois, nota-se que o cavalo de Justine não consegue transpor uma simples ponte, simbolizando a impossibilidade da personagem em ultrapassar obstáculos simples para todos os outros.

Voltada para Claire (interpretada pela genial Charlotte Gainsbourg), a segunda parte foca no seu desespero e na destruição de seu universo particular com a aproximação e colisão com o planeta. Enquanto isso, Justine apresenta-se extremamente tranquila e aliviada, reconstruindo sua existência gradativamente e aceitando com muita paz e serenidade o destino de todos, abraçando o astro e tornando-se parte dele, deixando que ele a invada, a conquiste. Recebendo-o de braços abertos, sem medo ou temor, deitando-se nua em frente ao corpo celeste, chocando Claire, e ao mesmo tempo deixando as questões mundanas para trás. Contemplando Melancolia lado a lado com a lua, numa cena de tirar o fôlego.


Dessa forma, Claire não aceita a situação e fica completamente perdida, incapaz de compreender, por exemplo, porque um dos funcionários do castelo foi esperar a chegada do planeta junto com sua família. Ela teme pelo seu filho, pelo seu marido, pela sua vida e pela Terra e a vida que existe nela.


O roteiro frisa, na figura de John, o pragmático marido de Claire, a presença de dezoito buracos no campo de golfe. Perto da conclusão da narrativa, podemos ver uma bandeira sinalizando o décimo nono buraco. Com essa metáfora, von Trier escancara a imprevisibilidade da existência humana, a inconstância e inconsistência da vida na Terra ou em qualquer parte do cosmos, afinal, “a terra é má... A vida está apenas nela. E não por muito tempo.”

Contando com um roteiro bem amarrado, o filme permite múltiplas interpretações, considerando que uma obra existe independentemente de seu criador. Acredito que o cinema poucas vezes retratou os desesperos humanos de maneira tão fluida e orgânica, sob a forma de um planeta que se aproxima implacavelmente e colide com o nosso, absorvendo-nos... Ainda que tenha vários erros de continuidade, o filme funciona de maneira sensacional. É interessantíssimo perceber que, mesmo sendo um diretor pessimista (vide sua abordagem em Anticristo e Dogville), Lars von Trier mostra que podemos, sim, encontrar tranqüilidade até nas situações mais improváveis.


Por Bernardo Argollo

Crédito dos frames: Site Blu-ray.com (www.blu-ray.com)

domingo, 8 de julho de 2012

Crítica: O Iluminado (1980)















"All work and no play makes Jack a dull boy."

Título original: The Shining. Dirigido e produzido por: Stanley Kubrick. Roteiro de: Stanley Kubrick, Diane Johnson. Montado por: Ray Lovejoy. Fotografia de: John Alcott. Estrelando: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd e Scatman Crothers.

Nada melhor que inaugurar o blog com uma crítica acerca desta obra-prima do fantástico diretor Stanley Kubrick. Apesar de ser um filme de terror, sempre encarei a produção como um ensaio sobre pessoas, relacionamentos, confinamento e, principalmente, solidão. Os personagens, apesar de terem uns aos outros, encontram-se sozinhos, cada um preso a seus próprios dramas e impressões pessoais.

A trama gira em torno de Jack Torrance (Jack Nicholson), que durante o inverno é contratado como zelador no imenso e isolado Hotel Overlook, no Colorado. Antes de ser admitido, ainda na estrevista, o dono do hotel conta a Jack a história de um antigo zelador que, afetado pela síndrome da cabana (onde indivíduos isolados se rebelam uns contra os outros) mata a esposa e suas duas filhas. Durante 5 meses, ele terá que ficar confinado junto com sua esposa Wendy (Shelley Duvall) e filho Danny (Danny Lloyd), que possui um dom especial que, entre outras coisas, o dá visões do que acontecerá no hotel. Ao chegarem no local, são guiados por Dick Hallorann (Scatman Crothers), um cozinheiro que possui o mesmo dom de Danny, sendo capaz inclusive de se comunicar telepaticamente com o garoto. O cozinheiro revela a Danny que a habilidade compartilhada por eles é hereditária, informação útil para interpretar a abordagem que Kubrick escolhe na maior parte da película. 

O filme não deixa claro se as visões de Jack são fruto de sua mente perturbada ou, simplesmente, de fantasmas presentes no hotel. Nesse balanço entre psicológico e sobrenatural, o diretor leva o espectador a enxergar as aparições no hotel como fragmentos de um passado que se manifestam ali, independente de sua origem. É interessante notar o uso da cor vermelha e de espelhos toda vez que Jack se encontra diante de um “fantasma”, ressaltando, dessa forma, os problemas e ansiedades do personagem, à medida que ele [Jack] deforma sua perspectiva de si mesmo e de sua família.

A construção visual do hotel, com seu exterior cinzento e sua decoração sóbria repleta de motivos indígenas, o que o torna ainda mais assustador, visto que supostamente foi construído sobre uma área de conflito entre colonizadores e nativos, com as terras tendo sido tomadas à força. A importância da steadicam para a narrativa é imensa, ao colocar o espectador na altura de Danny, deixando o local ainda mais perturbador. Outro detalhe interessante é o som angustiante do velotrol no assoalho e nos tapetes, que dificilmente seria conseguido sem os equipamentos próximos do pequeno ator (o próprio Kubrick se surpreendeu com o efeito do som diegético).

No que tange às atuações, Jack Nicholson dá um show à parte com suas expressões intensas e, às vezes, um tanto caricatas. Shelley Duvall está excelente como Wendy, tendo a ingenuidade e o desconhecimento da personagem ressaltados com o figurino meticulosamente pensado, soando ao mesmo tempo comportado, recatado, reprimido e abobalhado. Outro destaque é Danny Lloyd, o garoto de 6 anos que foi tão protegido por Stanley Kubrick que só descobriu o verdadeiro gênero do filme anos mais tarde. 

Sendo inspirado pela obra de Stephen King, e não adaptado desta, o filme homenageia o livro em diversas cenas. A mais evidente é o plano que mostra um homem vestido de cachorro, supostamente praticando sexo oral. É uma singela referência ao livro, em que a subtrama envolvendo o homem é detalhada, sendo usado por Kubrick apenas para propósitos dramáticos e narrativos.

 
A fotografia mostrada na cena final sugere uma nova abordagem que se contrapõe ao tom psicológico adotado na maior parte da narrativa, sendo possível escrever páginas e páginas de interpretações. Ao levar o espectador a questionar-se, Kubrick ratifica que, para ele, a função do cineasta é levantar questões, e não dar respostas.

Por Bernardo Argollo

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